
No primeiro Domingo do Advento, celebrado no dia 1º de dezembro, começamos um novo Ano Litúrgico, no qual contemplaremos o Evangelho de Lucas. Imersos na celebração do Ano Jubilar, somos chamados a celebrar em profundidade a cosmogênese da criação, celebrando a misericórdia e a docilidade de Cristo.
A regeneração da totalidade é um dos apelos de Jesus que aparece no Evangelho de Lucas. Contemplamos esse apelo cristológico quando percebemos que em nosso tempo, ainda existem pessoas que persistem em viver a dinâmica ἀνταπόδομα (antapodomá), ou seja, a falta de gratuidade nas relações humanas, como nos lembra Enzo Bianchi. Antapodomá é o conflito desta festa citada por Jesus em Lc 14, 1.7-14, que tem seu início com o desejo do primeiro lugar, a visibilidade superficial, ser centro das dinâmicas sociais, esquecendo que o único centro do centro de nosso coração é o Cristo.
Somos os convivas de Jesus neste Ano Jubilar, para fazermos a passagem da antapodomá à ἀναστάσει (anastasei), à Vida Nova, Vida Iluminada, à Ressurreição, à verdadeira festa dos amados e diletos corações da Trindade, que começa no momento presente e se perpetuará até o encontro definivo com o Pai, pelo Filho no Espírito Santo. Desse modo, os santos padres nos ajudam a compreender essa dimensão mística da qual toda humanidade é chamada a celebrar nesta festa jubilar.
Segundo Arthur A. Just Jr., o Evangelho de Lucas, nas homilias dos Padres da Igreja, aparece com um caráter didático, para ensinar ao povo de Deus o sentido dos textos, kerigmático para proclamar o sentido espiritual e pastoral do mesmo, e paranético, pois exortava a viver a vida como um reflexo de Cristo que morava no meio do povo e no interior de cada partícipe da comunidade orante.
Nessa perspectiva compreeendemos que os santos padres, utilizando-se do Evangelho de Lucas, acentuavam nos seus comentários o caráter litúrgico, porque todos celebravam uma realidade viva na comunidade, onde a história vida girava entorno do Batismo e da Eucaristia. Por exemplo: Agostinho sublinha os ensinamentos de Jesus acerca da caridade como a mais importante manifestação da vida cristã. Nas 39 homilias de Orígines sobre Lucas, nos chama a atenção sobre o predomínio de uma leitura do texto sobre alegoria, com o propósito exegético em iluminar o seu sentido cristológico. E Cirilo de Alexandria nos 150 comentários sobre Lucas deixa claro o caráter doutrinal, como nos diz Old: “o fim principal do dos Evangelhos é ensinar cristologia, a doutrina da Pessoa e Obra de Cristo”.
Imersos nessa dimanicidade lucana, podemos afirmar, com Dante, que, realmente, verdadeiramente, Lucas se desvela como um “escriba da docilidade de Cristo”, por causa de sua ênfase no Haharim, “na Misericordia de Jesus para com os pecadores e renegados. Algumas das mais memoráveis histórias de misericórdia divina encontram-se somente em Lucas (a viúva de Naim, o filho reencontrado, Zaqueu)” como nos lembra Jerome Kodell, O.S.B.
Celebrar o Jubileu contemplando o Evangelho de Lucas nos faz inteiramente particípes do Haharim, do perdão visceral e integral oferecido pela Trindade na dinamicidade dócil e afável de Cristo. Sendo assim, não tenhamos medo de entrar neste festim reservado a cada um de nós, pois a festa, segundo Mauricio Barba: “é um contato envolvente, que transforma em desejo a necessidade muda da pele corporal, desejo de metamorfose, oferecida em cada festa liturgica”. E como nos recorda Walter Kasper em seu livro sobre a liturgia, é próprio da liturgia transfigurar a nossa totalidade e como consequência a transfiguração da nossa cultura.
Por fim, como peregrinos da esperança, contemplando e vivenciando o Evangelho de Lucas, peçamos a graça de celebrar com júbilo em “espírito e vida”, a comosgênese da criação, transfigurando tudo e todos no amor de Cristo, pois todo cristão é “De Forti Dulcedo”, portador, sinal e presença da força e da docilidade do Amado Ressuscitado.
Padre Wendel Perre dos Santos
Reitor do Seminário Filosófico Dom Albano Cavallin
Mestre em Liturgia e em Cristologia
Artigo publicado na edição de novembro e dezembro da Revista Comunidade, publicação bimestral da Arquidiocese de Londrina (desde 1989)