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Prezados irmãos e irmãs, ainda enlutados pela morte do Cardeal Geraldo Majella Agnelo, arcebispo emérito de São Salvador e primaz do Brasil, ex-arcebispo de Londrina, vimos por meio desta nota nos pronunciar sobre a repercussão gerada pela comunhão ministrada por mim, dom Geremias Steinmetz, ao Sheiki Jeque Ahmad Saleh Mahairi.

Vivemos nestes dias uma cerimônia muito bonita da nossa Igreja Católica Apostólica Romana, que celebra, não a morte, mas a fé na vida eterna através do Cristo vivo e ressuscitado. O funeral de dom Geraldo, homem entre os mais importantes da Igreja do Brasil e do mundo, envolveu mais de 24h de orações ininterruptas na Catedral Metropolitana de Londrina, com a presença de padres de todos os decanatos da Arquidiocese de Londrina, que engloba 16 municípios da região, e cerca de 20 bispos, entre eles três cardeais, padres e religiosos de todo país.

Muito além de respeitada autoridade religiosa, dom Geraldo era amigo e ente querido de muitos, que se fizeram presentes nas celebrações, principalmente na última Santa Missa antes do sepultamento, às 10h, para prestar-lhe suas homenagens. Ali estavam, portanto, pessoas de diversas confissões religiosas, dentre elas, autoridades civis e religiosas, como o Sheiki Jeque Ahmad Saleh Mahairi, da Mesquita Rei Faiçal.

Sheiki Mahairi conhecia dom Geraldo Majella desde a década de 1980 e estava no funeral do Cardeal Agnelo como um amigo, pesaroso pelo sepultamento de outro amigo. O Sheiki é um homem conhecido em vários âmbitos da sociedade e mantém respeitosa relação com a Igreja Católica. Foi também amigo de outro arcebispo de Londrina, o saudoso dom Albano Cavallin, com quem mantinha uma relação próxima. Como amigo participou da celebração eucarística e, adentrando à fila da comunhão, recebeu o corpo de Cristo.

As imagens da transmissão da Santa Missa mostram Sheiki Mahairi recebendo a Eucaristia das minhas mãos, mas não o mostram a consumindo. Diante da repercussão dessas imagens, encarreguei o vigário geral da Arquidiocese de Londrina, padre Rafael Solano, de conversar com o Sheiki para esclarecer a situação. Lamentando profundamente o ocorrido, pois seu desejo não foi desrespeitar a Igreja Católica, Sheiki Mahairi falou ao vigário geral que recebeu Jesus, foi até o seu banco, sentou-se e consumiu a Eucaristia. Segundo ele, dom Albano há muitos anos havia explicado que a Eucaristia é o corpo de Jesus, considerado um profeta para o Islã.

A Igreja olha também com estima para os muçulmanos. Adoram eles o Deus Único, vivo e subsistente, misericordioso e onipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o coração, como a Deus se submeteu Abraão, que a fé islâmica de bom grado evoca. Embora sem o reconhecerem como Deus, veneram Jesus como profeta, e honram Maria, sua mãe virginal, à qual por vezes invocam devotamente. Esperam pelo dia do juízo, no qual Deus retribuirá todos os homens, uma vez ressuscitados. Têm, por isso, em apreço à vida moral e prestam culto a Deus, sobretudo com a oração, a esmola e o jejum. (Declaração “Nostra aetate”, n.3)

Esclarecidos esses pontos, por fim gostaríamos de considerar o que o Papa Francisco nos ensina no seu último documento sobre a Liturgia, Desiderio Desideravi, de 2022. Ninguém havia conquistado um lugar para a última Ceia. Foram, antes, convidados, atraídos, pelo desejo ardente do próprio Jesus de comer aquela Páscoa com eles, cujo cordeiro é Ele próprio.

“Antes da nossa resposta ao convite – muito antes – está o seu desejo por nós: até podemos não ter consciência disso, mas de cada vez que vamos à Missa a razão primeira é porque somos atraídos pelo seu desejo de nós. Por nossa parte, a resposta possível, a ascese mais exigente é, como sempre, a de nos rendermos ao seu amor, de nos deixarmos atrair por Ele. O certo é que todas as nossas comunhões no Corpo e Sangue de Cristo foram por Ele desejadas na última Ceia”, escreveu o Papa Francisco. Toda criação é manifestação do amor de Deus. E desde que esse amor se manifestou na plenitude da Cruz de Jesus, “toda a criação é atraída por Ele. É toda a criação que é assumida para ser posta ao serviço do encontro com o Verbo encarnado, crucificado, morto, ressuscitado, que subiu ao Pai.”(n.42)

A Eucaristia que se levanta, verdadeiro Corpo e Sangue de Jesus, é comungado pelo povo reunido em volta do altar também como sinal de caridade, desse amor irrepetível de Deus que se manifesta na Cruz de Jesus. Assim sendo, “abandonemos as polêmicas para escutarmos juntos o que o Espírito diz à Igreja, conservemos a comunhão, continuemos a maravilhar-nos pela beleza da Liturgia. Foi-nos dada a Páscoa, deixemo-nos guardar pelo desejo que o Senhor continua a ter de a poder comer conosco. Sob o olhar de Maria, Mãe da Igreja”. (Papa Francisco – Desiderio Desideravi, n.65). A Celebração Eucarística nos ensina o exercício nobre da caridade, alimenta a mansidão, nos conduz à fraternidade e ao respeito a todos. A Eucaristia, mistério do amor, seja para todos fonte de graça e de luz que ilumina os caminhos da vida.

Londrina, 30 de agosto de 2023

Em Cristo Jesus. A minha bênção,

Dom Geremias Steinmetz

Arcebispo Metropolitano de Londrina

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