Entrevista do Papa Francisco à mídia vaticana sobre ser genitores em tempo de Covid e o testemunho de São José, exemplo de força e ternura para os pais de hoje.

 

O Ano especial sobre São José se concluiu em 8 de dezembro passado, mas a atenção e o amor do Papa Francisco por este Santo não se esgotaram; pelo contrário, se desenvolveram ulteriormente com as catequeses que, desde 17 de novembro passado, está dedicando à figura do Padroeiro universal da Igreja. Da nossa parte, L’Osservatore Romano publicou uma coluna mensal no decorrer de todo o ano de 2021, que foi proposta também no site do Vatican News, sobre a Patris Corde, dedicando cada artigo a um capítulo da Carta Apostólica sobre São José. Esta coluna que falou de pais, mas também de filhos e de mães em diálogo ideal com o Esposo de Maria, suscitou em nós o desejo de poder nos confrontar com o Papa precisamente sobre o tema da paternidade em suas mais diversas facetas, desafios e complexidades. Assim nasceu esta entrevista, em que Francisco responde às nossas perguntas mostrando todo o seu amor pela família, a sua proximidade por quem experimenta o sofrimento e o abraço da Igreja aos pais e mães que hoje devem enfrentar inúmeras dificuldades para dar um futuro aos próprios filhos.

 

Santo Padre, o senhor convocou um Ano especial dedicado a São José, escreveu uma carta, a Patris Corde, e está realizando um ciclo de catequeses dedicado à sua figura. Que representa São José para o senhor?

Nunca escondi a sintonia que sinto em relação à figura de São José. Creio que isto provenha da minha infância, da minha formação. Desde sempre cultivei uma devoção especial a São José porque creio que a sua figura represente, de maneira bela e especial, o que deveria ser a fé cristã para cada um de nós. Com efeito, José é um homem normal e a sua santidade consiste precisamente em ter-se feito santo através das circunstâncias boas e ruins que teve que viver e enfrentar. Porém, não podemos nem mesmo esconder o fato de que encontramos São José no Evangelho, sobretudo nas narrações de Mateus e Lucas, como um protagonista importante do início da história da salvação. De fato, os eventos que viram o nascimento de Jesus foram eventos difíceis, repletos de obstáculos, de problemas, de perseguições, de escuridão, e Deus, para ir ao encontro do Seu Filho que nascia no mundo, colocou ao seu lado Maria e José. Se Maria é aquela que deu ao mundo o Verbo feito carne, José é quem o defendeu, quem o protegeu, quem o nutriu, quem o fez crescer. Nele, poderíamos dizer que existe o homem dos tempos difíceis, o homem concreto, o homem que sabe assumir sua responsabilidade. Neste sentido, em São José se unem duas características. De um lado, a sua acentuada espiritualidade, que é traduzida no Evangelho através das histórias dos sonhos; essas narrações testemunham a capacidade de José de saber escutar Deus que fala ao seu coração. Somente uma pessoa que reza, que tem uma intensa vida espiritual, pode ter também a capacidade de saber distinguir a voz de Deus em meio às muitas vozes que nos habitam. Ao lado desta característica, há depois outra: José é o homem concreto, isto é, o homem que enfrenta os problemas com extrema praticidade, e diante das dificuldades e dos obstáculos, ele jamais assume uma postura de vitimismo. Coloca-se, ao invés, sempre na perspectiva de reagir, de corresponder, de entregar-se a Deus e de encontrar uma solução de maneira criativa.

 

Esta renovada atenção a São José neste momento de tão grande provação assume um significado particular?

O tempo que estamos vivendo é um tempo difícil, marcado pela pandemia do coronavírus. Muitas pessoas sofrem, muitas famílias estão em dificuldade, tantas pessoas são assediadas pela angústia da morte, de um futuro incerto. Pensei que em um momento tão difícil tínhamos necessidade de alguém que pudesse nos encorajar, nos ajudar, nos inspirar, para entender qual é o modo correto para saber enfrentar esses momentos de escuridão. José é uma testemunha luminosa em tempos sombrios. Eis porque era correto dar-lhe espaço neste momento, para poder encontrar o caminho.

 

Seu ministério petrino começou precisamente em 19 de março, dia da festa de São José…

Sempre considerei uma delicadeza do céu poder iniciar meu ministério petrino em 19 de março. Creio que de alguma forma São José quis me dizer que continuaria a me ajudar, a estar ao meu lado, e eu poderia continuar a considerá-lo um amigo a quem posso recorrer, em quem posso confiar, a quem pedir para interceder e rezar por mim. Mas certamente essa relação que se dá na comunhão dos Santos não é reservada somente a mim, penso que poderá ser de ajuda para muitos. Eis porque espero que o ano dedicado a São José tenha despertado no coração de muitos cristãos o valor profundo da comunhão dos Santos, que não é uma comunhão abstrata, mas uma comunhão concreta que se expressa em uma relação concreta e tem consequências concretas.

 

Na coluna sobre a Patris Corde, apresentada pelo nosso jornal durante o ano especial dedicado a São José, entrelaçamos a vida do Santo com a dos pais, mas também com a dos filhos de hoje. O que os filhos de hoje, ou seja, os pais de amanhã, podem receber do diálogo com São José?

Não nascemos pais, mas certamente todos nascemos filhos. Esta é a primeira coisa que devemos considerar, isto é, cada um de nós, para além do que a vida lhe reservou, é antes de tudo um filho, foi confiado a alguém, vem de uma relação importante que o fez crescer e que o condicionou no bem e no mal. Ter essa relação, e reconhecer a sua importância na própria vida, significa entender que um dia, quando tivermos a responsabilidade pela vida de alguém, ou seja, quando tivermos que exercer uma paternidade, levaremos conosco antes de tudo a experiência que tivemos em nível pessoal. E, portanto, é importante poder refletir sobre essa experiência pessoal para não repetir os mesmos erros e valorizar as coisas belas que vivemos. Estou convencido de que a relação de paternidade que José tinha com Jesus influenciou de tal modo sua vida, a ponto de a futura pregação de Jesus estar repleta de imagens e referências retiradas precisamente do imaginário paterno. Jesus, por exemplo, diz que Deus é Pai, e esta afirmação não nos pode deixar indiferentes, sobretudo pensando no que foi a sua experiência humana pessoal de paternidade. Isso significa que José foi um pai tão bom, que Jesus encontrou no amor e na paternidade deste homem a mais bela referência a dar a Deus. Poderíamos dizer que os filhos de hoje que se tornarão os pais de amanhã, deveriam perguntar-se que pais tiveram e que pais querem ser. Não devem deixar que o papel paterno seja fruto do acaso ou simplesmente da consequência de uma experiência feita no passado, mas que conscientemente possam decidir como querer bem alguém, como assumir a responsabilidade por alguém.

 

O último capítulo da Patris Corde fala de José como um pai na sombra. Um pai que sabe como estar presente, mas deixa seu filho livre para crescer. Isso é possível em uma sociedade que parece recompensar apenas aqueles que ocupam espaço e visibilidade?

Uma das mais belas características do amor, e não apenas da paternidade, é precisamente a liberdade. O amor sempre gera liberdade, o amor nunca deve se tornar uma prisão, uma posse. José nos mostra a capacidade de cuidar de Jesus sem nunca tomar posse dele, sem nunca querer manipulá-lo, sem nunca querer distrai-lo da sua missão. Creio que isto seja muito importante como um teste à nossa capacidade de amar e também à nossa capacidade de saber dar um passo atrás. Um bom pai é assim quando sabe se retirar no momento certo para que seu filho possa emergir com a sua beleza, com a sua singularidade, com as suas escolhas, com a sua vocação. Neste sentido, em todo bom relacionamento, é necessário renunciar ao desejo de impor do alto uma imagem, uma expectativa, uma visibilidade, para preencher a cena completamente e sempre com um protagonismo excessivo. A característica de José de saber se colocar de lado, sua humildade, que é também a capacidade de ocupar um lugar secundário, talvez seja o aspecto mais decisivo do amor que José demonstra por Jesus. Neste sentido, ele é um personagem importante, ousaria dizer essencial na biografia de Jesus, justamente porque em determinado momento ele sabe como se retirar de cena para que Jesus possa brilhar em toda sua vocação, em toda sua missão. Na imagem de José, devemos nos perguntar se somos capazes de saber dar um passo atrás, de permitir que outros, e sobretudo aqueles que nos são confiados, encontrem em nós um ponto de referência, e nunca um obstáculo.

 

O senhor já denunciou várias vezes que a paternidade hoje está em crise. O que pode ser feito, o que a Igreja pode fazer para restaurar a força da relação pai-filho, que é fundamental para a sociedade?

Quando pensamos na Igreja, sempre pensamos nela como Mãe, e isto certamente não está errado. Ao longo dos anos, eu também tenho tentado insistir muito nesta perspectiva porque a maneira de exercer a maternidade da Igreja é através da misericórdia, ou seja, é aquele amor que gera e regenera a vida. Não é o perdão, a reconciliação, um modo através do qual somos recolocados em pé? Não é uma maneira através da qual recebemos novamente a vida porque recebemos outra chance? Não pode existir uma Igreja de Jesus Cristo a não ser através da misericórdia! Mas creio que devemos ter a coragem de dizer que a Igreja não deve ser apenas materna, mas também paterna. Ou seja, ela é chamada a exercer um ministério paterno, não paternalista. E quando digo que a Igreja deve recuperar este aspecto paterno, estou me referindo precisamente à capacidade inteiramente paterna de colocar os filhos em condições de assumir suas próprias responsabilidades, de exercer a própria liberdade, de fazer suas escolhas. Se por um lado a misericórdia nos cura, nos consola e nos encoraja, por outro o amor de Deus não se limita simplesmente a perdoar e curar, mas o amor de Deus nos leva a tomar decisões, a tomarmos o nosso caminho.

 

Às vezes, o medo, ainda mais neste momento de pandemia, parece paralisar este impulso…

Sim, este período da história é marcado por uma incapacidade de tomar grandes decisões na própria vida. Nossos jovens muitas vezes têm medo de decidir, de escolher, de se envolver. Uma Igreja é Igreja não só quando diz sim ou não, mas sobretudo quando encoraja e possibilita grandes escolhas. E toda escolha tem sempre consequências e riscos, mas às vezes por medo das consequências e riscos, ficamos paralisados e somos incapazes de fazer algo ou escolher algo. Um verdadeiro pai não diz a você que tudo vai sempre correr bem, mas que mesmo se você se encontrar em uma situação em que as coisas não vão bem, você será capaz de enfrentar e viver com dignidade esses momentos, também os fracassos. Uma pessoa madura se reconhece não por suas vitórias, mas pela forma como sabe viver um fracasso. É precisamente na experiência da queda e da fraqueza que se reconhece o caráter de uma pessoa.

 

Para o senhor, a paternidade espiritual é muito importante. Como os sacerdotes podem ser pais?

Dizia antes que a paternidade não é algo óbvio, não se nasce pai, no máximo torna-se pai. Do mesmo modo, um sacerdote não nasce já padre, mas deve aprender um pouco de cada vez, começando, antes de tudo, por se reconhecer como filho de Deus, mas depois também como filho da Igreja. E a Igreja não é um conceito abstrato, é sempre o rosto de alguém, uma situação concreta, algo a quem podemos dar um nome preciso. Recebemos sempre a nossa fé através de uma relação com alguém. A fé cristã não é algo que se possa aprender nos livros ou através de simples raciocínios, mas é sempre uma passagem existencial que passa através de relações. Assim, a nossa experiência de fé nasce sempre do testemunho de alguém. Devemos, portanto, perguntar-nos como vivemos a nossa gratidão para com estas pessoas e, sobretudo, se conservamos a capacidade crítica para sermos capazes de discernir o que não é bom daquilo que elas nos transmitiram. A vida espiritual não é diferente da vida humana. Se um bom pai, humanamente falando, é pai porque ajuda o seu filho a tornar-se si mesmo, tornando possível a sua liberdade e encorajando-o a tomar grandes decisões, igualmente um bom pai espiritual é pai não quando se substitui à consciência das pessoas que confiam nele, não quando responde às perguntas que essas pessoas carregam em seus corações, não quando domina a vida daqueles que lhe são confiados, mas quando de forma discreta e ao mesmo tempo firme é capaz de mostrar o caminho, fornecer diferentes chaves de interpretação e ajudar no discernimento.

 

O que é hoje mais urgente para dar força a esta dimensão espiritual da paternidade?

A paternidade espiritual é muitas vezes um dom que nasce sobretudo da experiência. Um pai espiritual pode partilhar não tanto os seus conhecimentos teóricos, mas sobretudo a sua experiência pessoal. Só desta forma pode ser útil a um filho. Há uma grande urgência neste momento histórico de relações significativas que poderíamos definir como paternidade espiritual, mas – permitam-me dizer – também maternidade espiritual, porque este papel de acompanhamento não é uma prerrogativa masculina ou apenas dos sacerdotes. Há muitas boas religiosas, muitas consagradas, mas também muitos leigos e leigas que têm uma bagagem de experiência que podem partilhar com outras pessoas. Neste sentido, a relação espiritual é uma daquelas relações que precisamos redescobrir com mais força neste momento histórico, sem nunca a confundir com outros caminhos de natureza psicológica ou terapêutica.

 

Entre as dramáticas consequências da Covid está também a perda do emprego de muitos pais. O que gostaria de dizer a estes pais em dificuldade?

Sinto-me muito próximo ao drama daquelas famílias, daqueles pais e mães que estão vivendo uma dificuldade particular, agravada sobretudo pela pandemia. Acredito que não seja um sofrimento fácil de ser enfrentado, o de não conseguir dar pão aos filhos e de se sentir responsável pela vida dos outros. Neste sentido, a minha oração, a minha proximidade, mas também todo o apoio da Igreja é para estas pessoas, para estes últimos. Mas também penso em tantos pais, tantas mães, tantas famílias que fogem das guerras, que são rejeitadas nas fronteiras da Europa e não somente, e que vivem em situações de dor, de injustiça e que ninguém leva a sério ou ignora deliberadamente. Gostaria de dizer a estes pais, a estas mães, que para mim eles são heróis, porque encontro neles a coragem daqueles que arriscam as suas vidas por amor aos seus filhos, por amor às suas famílias. Também Maria e José experimentaram este exílio, esta provação, tendo de fugir para um país estrangeiro por causa da violência e do poder de Herodes. Esse sofrimento deles os torna próximos destes irmãos e irmãs que hoje sofrem as mesmas provações. Estes pais se dirigem com confiança a São José, sabendo que, como pai, ele viveu a mesma experiência, a mesma injustiça. E a todos eles e às suas famílias, gostaria de dizer que não se sintam sós! O Papa sempre se lembra deles e, na medida do possível, continuará a dar-lhes voz e a não se esquecer deles.

Andrea Monda – Alessandro Gisotti
Vatican News

“A esperança dos pobres jamais se frustrará” (Sal 9, 19): as palavras do salmista são o tema escolhido pelo Papa Francisco para o III Dia Mundial dos Pobres, que será celebrado em 17 de novembro. O Santo Padre recorda que a promoção dos pobres, mesmo social, não é um compromisso extrínseco ao anúncio do Evangelho.

Esta celebração instituída pelo Pontífice é fruto do Jubileu Extraordinário da Misericórdia e se realiza no domingo anterior ao da festa de Cristo Rei. Na Arquidiocese de Londrina, cada paróquia organizará programação própria.

 

Não aprendemos com a história
Em sua mensagem para a edição deste ano, Francisco faz uma comparação entre a situação do pobre no tempo do salmista e a situação atual e constata que pouco mudou.

 

“Passam os séculos, mas permanece imutável a condição de ricos e pobres, como se a experiência da história não ensinasse nada. Assim, as palavras do salmo não dizem respeito ao passado, mas ao nosso presente submetido ao juízo de Deus. ”

 

Francisco cita as “muitas formas de novas escravidões”, como famílias obrigadas a deixar a sua terra; órfãos que perderam os pais; jovens em busca duma realização profissional; vítimas de tantas formas de violência, da prostituição à droga; sem esquecer os milhões de migrantes instrumentalizados para uso político.

 

Lixeira humana
O Papa fala também das periferias de nossas cidades, repletas de pessoas que vagueiam pelas ruas, em busca de alimento. “Tendo-se tornado eles próprios parte duma lixeira humana, são tratados como lixo, sem que isto provoque qualquer sentido de culpa em quantos são cúmplices deste escândalo.”

 

Não obstante a descrição de injustiça e sofrimento no salmo, há uma definição do pobre: é aquele que «confia no Senhor» (cf. 9, 11), pois tem a certeza de que nunca será abandonado.

 

“Na Escritura, o pobre é o homem da confiança!”, escreve o Pontífice.

 

“É precisamente esta confiança no Senhor, esta certeza de não ser abandonado, que convida o pobre à esperança. Sabe que Deus não o pode abandonar.”

 

Compromisso intrínseco ao Evangelho
Jesus, por sua vez, não teve medo de Se identificar com cada um deles. Francisco então adverte: esquivar-se desta identificação equivale a ludibriar o Evangelho e diluir a revelação.

 

Sobretudo num período como o nosso, prossegue o Papa, é preciso reanimar a esperança e restabelecer a confiança. “É um programa que a comunidade cristã não pode subestimar. Disso depende a credibilidade do nosso anúncio e do testemunho dos cristãos.”

 

Francisco recorda que a promoção dos pobres, mesmo social, não é um compromisso extrínseco ao anúncio do Evangelho; pelo contrário, manifesta o realismo da fé cristã e a sua validade histórica. Como exemplo, o Santo Padre cita Jean Vanier, que faleceu recentemente, e o define como um “grande apóstolo dos pobres”.

 

Mudança de mentalidade
Por ocasião deste Dia Mundial, Francisco não pede somente iniciativas de assistência, mas faz votos de que aumente em cada um aquela atenção plena, que é devida a toda a pessoa que se encontra em dificuldade.

 

“Não é fácil ser testemunha da esperança cristã no contexto cultural do consumismo e do descarte, sempre propenso a aumentar um bem-estar superficial e efêmero. Requer-se uma mudança de mentalidade para redescobrir o essencial, para encarnar e tornar incisivo o anúncio do Reino de Deus.”

 

Em sua mensagem, o Pontífice não deixa de enaltecer o trabalho de inúmeros voluntários pelo mundo, mas recorda que os pobres não precisam somente de uma “sopa quente ou de um sanduíche”. “Precisam das nossas mãos para se reerguer, dos nossos corações para sentir de novo o calor do afeto, da nossa presença para superar a solidão. Precisam simplesmente de amor…”

 

Eis então a exortação final do Papa:

“A todas as comunidades cristãs e a quantos sentem a exigência de levar esperança e conforto aos pobres, peço que se empenhem para que este Dia Mundial possa reforçar em muitos a vontade de colaborar concretamente para que ninguém se sinta privado da proximidade e da solidariedade. ”

Bianca Fraccalvieri
Vatican News

Na live de hoje, 25 de outubro, no Facebook, o arcebispo de Belo Horizonte (MG) e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Walmor Oliveira de Azevedo, falou das expectativas para a aprovação e acolhida do documento final do Sínodo para a Amazônia que se encerra no próximo domingo, 27 de outubro, com celebração na basílica de São Pedro, no Vaticano.

 

“O Sínodo não acaba com a conclusão no próximo domingo. É a partir disto que, de fato, vai começar”, disse. Dom Walmor também falou dos desafios que se abrem para a Igreja a partir do Sínodo que ele definiu “como um tempo novo, um momento muito propício e fecundo para a missionariedade de nossa Igreja”.

 

Dom Walmor diz que este momento expressa, desde o Concílio Vaticano II, o caminho de uma Igreja Sinodal, isto é “uma Igreja que escuta o seu Deus, escuta o seu Evangelho, os clamores dos pobres e escuta uns aos outros no diálogo”. Por isto, afirma o presidente da CNBB, o Sínodo é um exemplo do que deve ser seguido por toda Igreja particular, toda diocese, toda paróquia e comunidade como um lugar de escuta.

 

“Quando a gente escuta a ação muda. Porque os clamores tocam, as palavras iluminam e do coração brota um novo modo da gente viver e compreender”, disse. O arcebispo disse que quando perguntarem a ele como foi o Sínodo, ele dirá: “uma riqueza eclesial da mais alta importância. Um grande dom de Deus que todos aqueles que participamos somos chamados e desafiados a fazer com que toda esta riqueza se desdobre em serviço”.  Acompanhe, abaixo, a íntegra do que disse o religioso na live de hoje.

 

Conclusões, expectativas e desdobramentos do Sínodo

“Com muita alegria, desejo a todos saúde e paz. E essa mesma alegria de compartilhar Esperanças para fecundar o caminho nosso como Igreja missionária presente em todo lugar por meio de cada um de nós para que o Evangelho de Jesus chegue nos corações. Nós estamos naturalmente cheios de expectativas, esperançosos, depois de se ter reunido, de todos os grupos, importantes contribuições ao documento final. Vamos recebê-lo na tarde/noite de hoje. Teremos o tempo para ler. E amanhã, sábado, 26 de outubro, teremos a Congregação Geral para votação.

 

Cada um de nós procurou contribuir. O Santo Padre muito bem nos acolheu e nos conduziu neste caminho. Sobretudo, conduzidos pela ação do Espírito Santo que fecunda nossos corações chamados a encontrar sempre novos caminhos para Amazônia para a Igreja no mundo inteiro. E de modo muito especial nos deixando desafiar por esse horizonte da ecologia integral porque precisamos urgentemente de uma nova postura na Casa Comum. Eu gostaria de dizer que o Sínodo para a Amazônia, como outros momentos vividos pela Igreja, comprova o que nós professamos como fé: “quem conduz a Igreja é o Espírito Santo de Deus”. Nós somos servidores, e portanto, abertos à sua ação.

 

As críticas foram muitas por falta adequado entendimento, o que é lamentável. Mas muito se fez para ajudar muitas pessoas a compreender a importância da experiência eclesial do Sínodo para a Amazônia. Houve abertura. E sobretudo na experiência dos participantes: bispos, padres, diáconos, cristãos leigos, indígenas, peritos, auditores, todos com o olhar voltado para o bem, como devemos ser como Igreja, e abertos à ação do Espírito Santo.

 

Poderemos, tenho certeza, depois de altos e baixos e de buscas, oferecer ao Santo Padre aquilo que ele vai nos dar como grandes orientações para o novo que buscamos. Tudo isto, só é possível porque somos a Igreja de Jesus Cristo. Por isto mesmo, é preciso convidar a todos para viver esta comunhão porque é ela que nos faz dar os passos na direção certa, mesmo quando muitas vezes parecer que estamos andando na sombra, no escuro, ou até em meio a altos e baixos”.

O Sínodo e as Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil

“Nós vamos encontrar na experiência deste Sínodo, de fato, um grande dom do Espírito Santo de Deus, fecundando a Igreja no mundo, particularmente na Amazônia, mas também de modo muito especial em nosso Brasil, quando nós estamos trabalhando no horizonte bonito das novas Diretrizes da Ação Evangelizadora para proclamar a Palavra, à luz da opção preferencial pelos pobres, formando comunidades missionárias e de modo muito especial ajudando nesta cultura urbana desafiadora que vivemos a criar uma nova mentalidade de trabalharmos e vivermos, de acordo com os valores do Evangelho, na Casa Comum”.

 

Novos caminhos para Igreja

“Portanto, estamos felizes. O caminho será longo. O Sínodo não acaba com a conclusão no próximo domingo com a celebração eucarística na basílica de São Pedro. É a partir disto que o Sínodo, de fato, vai começar depois da longa etapa de preparação de dois anos e de quase um mês intenso de trabalho. Então quando o Santo Padre nos indicar o caminho, vamos começar um caminho novo. E, eu tenho certeza, muito propício e fecundo para a missionariedade de nossa Igreja. É um novo tempo, um novo momento. Uma Igreja é sempre brindada pela força do seu Espírito Santo”.

 

Esperança pós-sínodo

“Estamos falando que somos chamados, pela nossa experiência de fé, a depositar em nosso Deus. É nele que confiamos porque somos d’Ele. D’Ele viemos, para Ele estamos voltando. É ele quem nos conduz. Por isto, a Igreja está no coração do mundo, ela não é um clube de amigos, não é uma organização não governamental, não é uma instância qualquer. A Igreja é a congregação dos filhos e filhas de Deus, como povo de Deus, abertos neste caminho. Há, portanto, a estrela desta esperança. Nós estamos voltados para o Reino definitivo a caminho do qual nós estamos. É esta nossa esperança. Uma esperança que ilumina e se desdobra, é claro, para que nossa fé seja autêntica num grande compromisso com a vida! A vida em todas as suas etapas, desde a concepção até o momento último, no declínio com a morte natural. E por isto mesmo, nos debruçamos sobre os mais pobres, ouvindo os clamores daqueles que estão sofrendo, porque nós temos que cuidar da vida e promove-la. É desta Esperança que falamos porque está selada por Cristo, Salvador do mundo, que morre na cruz e ressuscita para nos salvar. É esta Esperança que nos ilumina e nos faz como cristãos. Embora não tenhamos aqui a nossa Pátria definitiva estamos a trabalhar para que enquanto nesta Pátria terrena caminhamos possamos fazer dela um lugar bonito de amor e de fraternidade. A Igreja é um grande instrumento de salvação neste caminho e sempre como sinal de esperança.

 

Experiência de participar do Sínodo

“Eu agradeço a Deus por esta rica e desafiadora oportunidade de ter participado da preparação para o Sínodo, inclusive participando de um encontro com todos os padres Sinodais e peritos da Amazônia, porque nós no Brasil como Igreja e como sociedade, como eu tenho dito, precisamos “tomar um banho” de Amazônia para conhecer a sua riqueza, as suas tradições, seus povos, a beleza da Igreja e seus desafios missionários. Portanto, aqui foi uma oportunidade de fortalecer esta convivência, de escutar muito, porque a experiência Sinodal é uma experiência de escuta e quando a gente escuta a ação muda. Porque os clamores tocam, as palavras iluminam e do coração brota um novo modo da gente viver e compreender.

 

Por isto, ao me perguntarem como foi o Sínodo, terei a oportunidade de dizer: uma riqueza eclesial da mais alta importância. Um grande dom de Deus que todos aqueles que participamos somos chamados e desafiados a fazer com que toda esta riqueza se desdobre em serviço. Eu estou muito feliz por isto e tenho certeza que o Sínodo da Amazônia será uma grande riqueza fecundando o caminho missionário da Igreja no Brasil.

 

Por isto, me torno porta voz e servidor deste caminho como Igreja. E como primeiro servidor na presidência da CNBB que tem uma grande importância e que é o lugar de fecundar esta beleza bonita da colegialidade e da fraternidade entre os bispos de modo que fortalecidos, e colocando em comum coisas muito bonitas, possamos dar a beleza do caminho próprio de cada Igreja particular. Esta é uma grande riqueza e isto enche o coração de alegria e de gratidão”.

 

O aprendizado de ser uma Igreja sinodal

“Ao falar de Sínodo é importante pensar que o Concílio Vaticano II abriu este caminho para que a nossa Igreja seja sinodal, isto é uma Igreja que escuta, escuta o seu Deus, escuta o seu Evangelho, os clamores dos pobres, escuta uns aos outros. O Papa Francisco tem dito que é muito importante que, no tempo atual, na contemporaneidade, sermos uma Igreja sinodal, uma Igreja que escuta. Escutando é que nós podemos, de fato, deixar que o Espírito Santo fecunde o nosso caminho. Por isto, o Sínodo é um exemplo do que deve ser seguido toda Igreja particular, toda diocese, toda paróquia e comunidade. Também sinodal. Um lugar de escuta: escuta de Deus, do Evangelho, dos clamores e dos sofrimentos dos pobres e escuta uns dos outros no diálogo.

 

E foi isto que aqui experimentamos, com alegria. Posições diferentes, contribuições enriquecidas. Mas tudo na perspectiva bonita do amor de Deus e do serviço como Igreja. É por isto que nossa Igreja caminha e se torna forte. E ela será cada vais mais forte na medida em que for mais sinodal, portanto será fortalecida na comunhão, fiel às suas tradições, fiel ao seu Evangelho e fiel a tudo aquilo que é o tecido intocável da beleza mistérica da nossa Igreja. O Sínodo nos fortaleceu e por isto temos que fazer este caminho e que seja exemplar e um grande convite a todos participarem”.

 

Português como idioma no evento

“Eu fico muito feliz com o fato de o português, pela primeira vez, ser uma das línguas mais faladas num evento como o Sínodo porque é muito importante que todos os órgãos centrais da Igreja reconheçam a importância do português. Exatamente porque somos uma das maiores nações católicas do mundo, com uma conferência episcopal de grandíssima importância, um povo com riquezas e tradições muito bonitas. E juntando com outros povos que são também lusófanos, somos um grande grupo.

 

Por isto, é preciso que o português seja reconhecido nas transmissões e nos momentos. Isto tem crescido muito e o Sínodo de fato se tornou uma oportunidade para consolidar esta perspectiva. Inclusive porque grande parte da região Pan-Amazônia pertence ao Brasil, como mais de 20 milhões de habitantes e, portanto, esta é uma oportunidade bonita de consolidar o português e ao falar da língua nos remetemos a sistemas, tradições e valores”.

 

Presença do Papa

“O Papa Francisco é um homem de Deus, é um homem bom. Sua presença é sempre sinodal: acolhe a todos e está no meio de todos como aquele que serve e escuta. Também contribui. Cria um sentido muito profundo de família. Uma força muito singular de paternidade e que traz todo mundo a participar e a dizer o que sente e pensa. Faz a diferença a presença acolhedora, amorosa, fraterna e paterna do Papa Francisco. Somos muito agradecidos a ele. Por isto, vamos viver uma experiência muito bonita de comunhão, de amor filial e de adesão ao Papa Francisco e assim nos fortalecer. Seja este o caminho de toda nossa Igreja para que se torne mais forte nesta união bonita com aquele que é o sinal da unidade de toda a nossa Igreja. Estamos juntos neste caminho com muito carinho e muita fidelidade”.

 

Visita da presidência da CNBB ao Santo Padre

“Como é habitual a presidência da CNBB fazer, a cada ano, uma visita à Cúria Romana, do dia 28 ao dia 31 de outubro, a nova presidência da CNBB (dom Jaime Spengler, dom Mário Antônio e dom Joel Amado e eu), estará visitando as diferentes Congregações e Dicastérios do Vaticano e o para ouvir, compartilhar e encontrar sempre novos caminhos. Este caminho será coroado pelo nosso encontro com o Papa Francisco. Um momento de a gente reafirmar nossa adesão, nossa comunhão e também compartilhar nossas preocupações, desafios e tudo que nós estamos vivendo e fazendo para ouvir a sua palavra e suas orientações. E, ao mesmo tempo, fazer o nosso abraço, que é um abraço seu e meu, de todo povo brasileiro e de todos nós que somos discípulos e discípulas de Jesus, nos fortalecendo neste caminho com muita alegria.

 

Desejamos que este trabalho de comunicação a partir do Vaticano nos inspire. Porque estamos procurando também estrategicamente trabalhar a comunicação na CNBB que precisa acontecer em cada diocese, em cada paróquia e comunidade por meio de nossos meios (rádios, tvs, redes sociais) para que possamos cumprir a nossa tarefa bonita que é o mandato que o senhor Jesus nos Deus: ide e fazei discípulos meus entre os povos. Portanto, pregando o Evangelho. É o que estamos fazendo com muita alegria e simplicidade. Não há alegria maior que ser discípulo e discípula de Jesus. Vamos juntos neste trabalho para que no lugar de notícias falsas e tudo aquilo que ofende a dignidade das pessoas e de juízos inadequados que muitas vezes são espalhados, possamos oferecer uma comunicação que educa, abre corações, informa na verdade, que forma e nos faz cada vez mais discípulos e discípulas de Cristo”.

CNBB

O mundo amazônico pede à Igreja que seja sua aliada: esta é a alma do Documento de trabalho (Instrumentum Laboris) publicado na manhã desta segunda-feira (17 de junho) pela Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos e apresentado à imprensa.

 

O Documento é fruto de um processo de escuta que teve início com a visita do Papa Francisco a Puerto Maldonado (Peru) em janeiro de 2018, prosseguiu com a consulta ao Povo de Deus em toda a Região Amazônica por todo o ano e se concluiu com a II Reunião do Conselho Pré-Sinodal, em maio passado.

 

Ouvir com Deus o grito do povo; até respirar nele a vontade a que Deus nos chama

O território da Amazônia abrange uma parte do Brasil, da Bolívia, do Peru, do Equador, da Colômbia, da Venezuela, da Guiana, do Suriname e da Guiana Francesa, em uma extensão de 7,8 milhões de quilômetros quadrados, no coração da América do Sul. Suas florestas cobrem aproximadamente 5,3 milhões de km2, o que representa 40% da área de florestas tropicais do globo.

A primeira parte do Documento, “A voz da Amazônia”, apresenta a realidade do território e de seus povos. E começa pela vida e sua relação com a água e os grandes rios, que fluem como veias da flora e fauna do território, como manancial de seus povos, de suas culturas e de suas expressões espirituais, alimentando a natureza, a vida e as culturas das comunidades indígenas, camponesas, afrodescendentes, ribeirinhas e urbanas.

 

Vida ameaçada, ameaça integral

Rios, manancial de povos, culturas e expressões espirituais na Amazônia

A vida na Amazônia está ameaçada pela destruição e exploração ambiental, pela violação sistemática dos direitos humanos elementares de sua população. De modo especial a violação dos direitos dos povos originários, como o direito ao território, à autodeterminação, à demarcação dos territórios e à consulta e ao consentimento prévios.

Segundo as comunidades participantes nesta escuta sinodal, a ameaça à vida deriva de interesses econômicos e políticos dos setores dominantes da sociedade atual, de maneira especial de empresas extrativistas. Atualmente, a mudança climática e o aumento da intervenção humana (desmatamento, incêndios e alteração no uso do solo) estão levando a Amazônia rumo a um ponto de não-retorno, com altas taxas de desflorestação, deslocamento forçado da população e contaminação, pondo em perigo seus ecossistemas e exercendo pressão sobre as culturas locais.

O clamor da terra e dos pobres

Na segunda parte, o Documento examina e oferece sugestões às questões relativas à ecologia integral. Hoje, a Amazônia constitui uma formosura ferida e deformada, um lugar de dor e violência, como o indicam de maneira eloquente os relatórios das Igrejas locais recebidos pela Secretaria Geral do Sínodo. Reinam a violência, o caos e a corrupção.

“ O território se transformou em um espaço de desencontros e de extermínio de povos, culturas e gerações. ”

Há quem se sente forçado a sair de sua terra; muitas vezes cai nas redes das máfias, do narcotráfico e do tráfico de pessoas (em sua maioria mulheres), do trabalho e da prostituição infantil. Trata-se de uma realidade trágica e complexa, que se encontra à margem da lei e do direito.

Território de esperança e do “bem viver”

Os povos amazônicos originários têm muito a ensinar-nos. Reconhecemos que desde há milhares de anos eles cuidam de sua terra, da água e da floresta, e conseguiram preservá-las até hoje a fim de que a humanidade possa beneficiar-se do usufruto dos dons gratuitos da criação de Deus. Os novos caminhos de evangelização devem ser construídos em diálogo com estas sabedorias ancestrais em que se manifestam as sementes do Verbo.

Povos nas periferias

O Documento de Trabalho analisa também a situação dos Povos Indígenas em Isolamento Voluntário (PIAV). Segundo dados de instituições especializadas da Igreja (por ex., CIMI) e outras, no território da Amazônia existem de 110 a 130 diferentes “povos livres”, que vivem à margem da sociedade, ou em contato esporádico com ela. São vulneráveis perante as ameaças… do narcotráfico, de megaprojetos de infraestrutura, e de atividades ilegais vinculadas ao modelo de desenvolvimento extrativista.

Pará, comunidade ribeirinha do Rio Tapajós

Povos amazônicos em saída

A Amazônia se encontra entre as regiões com maior mobilidade interna e internacional na América Latina. De acordo com as estatísticas, a população urbana da Amazônia aumentou de modo exponencial; atualmente, de 70 a 80% da população reside nas cidades, que recebem permanentemente um elevado número de pessoas e não conseguem proporcionar os serviços básicos dos quais os migrantes necessitam. Não obstante tenha acompanhado este fluxo migratório, a Igreja deixou no interior da Amazônia vazios pastorais que devem ser preenchidos.

Igreja profética na Amazônia: desafios e esperanças

Enfim, a última parte do Documento de Trabalho chama os Padres Sinodais da Pan-amazônia a discutirem o segundo binário do tema proposto pelo Papa: os novos caminhos para a Igreja na região.

Por falta de sacerdotes, as comunidades têm dificuldade de celebrar com frequência a Eucaristia. “A Igreja vive da Eucaristia” e a Eucaristia edifica a Igreja. Por isso, pede-se que, em vez de deixar as comunidades sem a Eucaristia, se alterem os critérios para selecionar e preparar os ministros autorizados para celebrá-la. As comunidades pedem ainda maiores apreciação, acompanhamento e promoção da piedade com a qual o povo pobre e simples expressa sua fé, mediante imagens, símbolos, tradições, ritos e outros sacramentais. Trata-se da manifestação de uma sabedoria e espiritualidade que constitui um autêntico lugar teológico, dotado de um enorme potencial evangelizador. Seria oportuno voltar a considerar a ideia de que o exercício da jurisdição (poder de governo) deve estar vinculado em todos os âmbitos (sacramental, judicial e administrativo) e de maneira permanente ao sacramento da ordem.

Novos ministérios

Para além da pluralidade de culturas no interior da Amazônia, as distâncias causam um problema pastoral grave, que não se pode resolver unicamente com instrumentos mecânicos e tecnológicos. É necessário promover vocações autóctones de homens e mulheres, como resposta às necessidades de atenção pastoral-sacramental. Trata-se de indígenas que apregoem a indígenas a partir de um profundo conhecimento de sua cultura e de sua língua, capazes de comunicar a mensagem do Evangelho com a força e a eficácia de quem dispõe de uma bagagem cultural.

“ É necessário passar de uma “Igreja que visita” para uma “Igreja que permanece”, acompanha e está presente através de ministros provenientes de seus próprios habitantes.”

Afirmando que o celibato é uma dádiva para a Igreja, pede-se que, para as áreas mais remotas da região, se estude a possibilidade da ordenação sacerdotal de pessoas idosas, de preferência indígenas, respeitadas e reconhecidas por sua comunidade, mesmo que já tenham uma família constituída e estável, com a finalidade de assegurar os Sacramentos que acompanhem e sustentem a vida cristã.

Papel da mulher

É pedido que se identifique o tipo de ministério oficial que pode ser conferido à mulher, tendo em consideração o papel central que hoje ela desempenha na Igreja amazônica. Reclama-se o reconhecimento das mulheres a partir de seus carismas e talentos. Elas pedem para recuperar o espaço que Jesus reservou às mulheres, “onde todos/todas cabemos”. Propõe-se inclusive que às mulheres seja garantido sua liderança, assim como espaços cada vez mais abrangentes e relevantes na área da formação: teologia, catequese, liturgia e escolas de fé e de política.

A vida consagrada

Assembleia territorial da REPAM e Miracema (TO)

Propõe-se promover uma vida consagrada alternativa e profética, intercongregacional, interinstitucional, com um sentido de disposição para estar onde ninguém quer estar e com quantos ninguém quer estar. Aconselha-se que a formação para a vida religiosa inclua processos formativos focados a partir da interculturalidade, inculturação e diálogo entre espiritualidades e cosmovisões amazônicas.

Ecumenismo

O Documento não deixa de relevar o importante fenômeno importante a ter em consideração é o vertiginoso crescimento das recentes Igrejas evangélicas de origem pentecostal, especialmente nas periferias: “Elas nos mostram outro modo de ser Igreja, onde o povo se sente protagonista, onde os fiéis podem expressar-se livremente, sem censuras, dogmatismos, nem disciplinas rituais”.

Igreja e poder: caminho de cruz e martírio de muitos

Ser Igreja na Amazônia de maneira realista significa levantar profeticamente o problema do poder, porque nesta região o povo não tem possibilidade de fazer valer seus direitos face às grandes corporações econômicas e instituições políticas. Atualmente, questionar o poder na defesa do território e dos direitos humanos significa arriscar a vida, abrindo um caminho de cruz e martírio. O número de mártires na Amazônia é alarmante (por ex., somente no Brasil, de 2003 a 2017, foram assassinados 1.119 indígenas por terem defendido seus territórios).

“ A Igreja não pode permanecer indiferente mas, pelo contrário, deve contribuir para a proteção das/dos defensores de direitos humanos, e fazer memória de seus mártires, entre elas mulheres líderes como a Irmã Dorothy Stang. ”

Durante o percurso de construção do Instrumentum Laboris, ouviu-se a voz da Amazônia à luz da fé com a intenção de responder ao clamor do povo e do território amazônico por uma ecologia integral e por novos caminhos para uma Igreja profética na Amazônia. Estas vozes amazônicas exortam o Sínodo dos Bispos a dar uma resposta renovada às diferentes situações e a procurar novos caminhos que possibilitam um kairós para a Igreja e o mundo.

Vatican News/ texto de Cristiane Murray