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Durante as paraolimpíadas no Rio de Janeiro, no ano passado, a paraatleta belga Marieke Vervoort chamou a atenção da imprensa nacional e internacional por ter declarado que já havia programado sua morte após a competição. Ela sofre de uma grave doença degenerativa e as leis da Bélgica autorizam a eutanásia.

Talvez muitos de nós ainda não saibamos de forma clara o que vem a ser eutanásia e a confundamos com outros procedimentos como a ortotanásia e a distanásia, por exemplo.

Pois bem, eutanásia consiste na prática de pôr fim à vida de pessoas deficientes, doentes ou moribundas. Muitas pessoas defendem a eutanásia dizendo que se trata de motivos humanitários e de compaixão, e que toda pessoa tem direito à uma morte digna e boa. De fato a palavra eutanásia na sua origem significa “morte boa”.  Mas é exatamente à sombra de confusões semânticas que muitas pessoas se aproveitam para defender a legalização desta prática desumana e imoral. Toda ação ou omissão que, em si ou na intenção gera a morte, mesmo que seja para suprimir a dor e o sofrimento, constitui um assassinato gravemente contrário à dignidade da pessoa humana e ao respeito pelo Deus vivo, seu criador. A presunção de que alguém está sofrendo muito ou virá a sofrer, diz respeito muito mais aos que cercam a pessoa que está doente. Eles  sim, é que não se sentem confortáveis assistindo alguém sofrendo. Hoje a medicina tem recursos suficientemente capazes de reduzir, a níveis bastante aceitáveis, as dores físicas. Quanto às dores morais, muitas vezes, bem mais intensas do que as físicas, essas dizem respeito à assistência que o enfermo recebe. Há pessoas que pedem a eutanásia por estarem sofrendo muito e, quando passam a receber uma genuína e compassiva atenção, já não querem morrer. Soma-se a isto o fato de que, algumas vezes existem grandes interesses na morte de alguém. Uma herança a ser dividida pode levar parentes a se tornarem extremamente “misericordiosos”, solicitando então a eutanásia.

O tristemente famoso doutor “morte”, nos EE.UU, tornou-se um paradigma da eutanásia. Criando uma parafernália que nada mais era do que um sistema de administração de produtos mortíferos por ele preparados, mas acionado pelo paciente – como se isso atenuasse a sua própria responsabilidade naquelas mortes –foi investigado, verificando-se que alguns pacientes nem sequer eram portadores de doenças terminais. Verificou-se também, que o tal doutor beneficiou-se de “doações” financeiras destas vítimas.

Nós cristãos precisamos defender a vida. Por isso condenamos a eutanásia. Sejam quais forem os motivos e meios, esta prática é sempre moralmente inadmissível.

Desligar aparelhos que prolongam artificialmente uma vida vegetativa não é eutanásia. Também não é eutanásia interromper procedimentos médicos onerosos, perigosos, extraordinários ou desproporcionais aos resultados esperados. Igualmente não é eutanásia administrar medicamentos analgésicos e sedativos com o único objetivo de aliviar a dor do enfermo, sabendo-se contudo que, como efeito colateral poderá ocorrer a morte.  Com estes atos não se quer de maneira nenhuma provocar a morte. Aceita-se apenas o fato de não poder evitá-la. A estes procedimentos se dá o nome de ortotanásia. Foi o que aconteceu com o Papa, São João Paulo II. Ele mesmo, percebendo que o momento de voltar para a casa do Pai chegara, pediu que fossem suspensos os procedimentos que o estavam mantendo vivo.

Se é imoral e pecado antecipar a própria morte ou a de outra pessoa, é também imoral e pecado prolongar a vida de alguém que não tem mais nenhuma chance de sobreviver. Este procedimento se chama distanásia ou tratamento fútil.

Para concluir esta breve reflexão, lembro três princípios que devem orientar, todos nós cristãos, seguidores de Cristo, defensor da vida:

Toda a vida humana tem inevitavelmente um fim aqui na terra;
É fundamental assegurar que este fim ocorra com dignidade;
Nem tudo que é tecnicamente possível é eticamente correto.

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Dom Manoel João Francisco
Administrador Apostólico da Arquidiocese de Londrina