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SENTIR, ENTENDER E ALIVIAR A DOR DO OUTRO, UM CAMINHO HUMANO PARA PREVENIR O SUICÍDIO

SENTIR, ENTENDER E ALIVIAR A DOR DO OUTRO, UM CAMINHO HUMANO PARA PREVENIR O SUICÍDIO

Notícias

Desde o ano de 2005 iniciei um dos estudos mais exigentes da minha vida como teólogo moralista. O suicídio. A suicidologia no campo da psiquiatria e da psicologia está bem avançada. No campo antropológico, ético e moral não é assim.

Sentir, entender e aliviar a dor de quem procura se automutilar ou autoexterminar.

A leitura que se faz do suicídio no ambiente clerical é muito rápida e superficial; aliás às vezes só aguardamos que aconteça algo desagradável neste âmbito para falar sobre o assunto. Falar sobre o suicídio é algo mais do que uma urgência. Trata-se de uma prioridade.

O tema do suicídio entre nós, membros do clero, consagrados e consagradas, deve ser abordado com um caráter ainda maior, assim como também com uma epistemologia mais aguda e concreta. Fazer aquilo que já Henri de Lubac na sua obra “Paradoxos” anunciava: “ao falarmos das nossas fragilidades devemos entender que há um mistério que nos sustenta; a Encarnação do Filho de Deus”. Aliviar a dor de quem sofre e não machucar a ferida; esse é o nosso propósito.

Por esta razão proponho a cada um de vocês olharmos com profundidade para estes três itens que podem nos ajudar no caminho da prevenção.

Para começar o nosso diálogo poderíamos nos perguntar por que ainda não nos suicidamos. De fato, os que estamos lendo este texto estamos vivos e queremos continuar assim.

Num ambiente com uma problemática tão acirrada viver não é nada fácil. Numa das minhas aulas de moral sexual perguntei aos estudantes o que estavam percebendo diante da realidade sexualmente reconhecida no ambiente mundial e local. Um pansexualismo enraizado numa condição sociológica cada vez mais agressiva. Um dos estudantes respondeu sem hesitação: “por vezes a gente quer morrer e não ver o que estamos vendo”.

Esta resposta incendeu em mim os alarmes de uma situação altamente preocupante. Preferir morrer para não ver.

A primeira das análises que devemos fazer é sobre o significado de “sentir com”.

Cada vez torna-se mais difícil sentir do lado de alguém. O mimetismo afetivo, sensual e perceptivo esvazia hoje a vida de muitos bispos e presbíteros. Homens miméticos.

Nos tornamos especialistas em camuflar sentimentos, paixões e comportamentos meramente humanos. Se nós seguíssemos a teoria de Robert Sapolsky que, diga-se de passagem, é de uma riqueza única, a biologia nos ajuda a entender como comportamentos de competição, agressão e destruição são cada vez mais frequentes entre pessoas que amam fazer o bem.

Muitos dados de presbíteros que se suicidaram mostram que eles eram pessoas simpáticas, mas miméticas. A simpatia de um líder religioso não é garantia de desenvolvimento afetivo. “Sentir com” é sinal de perceber que todos os afetos são personalizados. Não amamos amigos virtuais nem seguidores virtuais. O relacionamento oferece um toque essencial na presença do outro. Por que será tão excessivamente difícil sermos amigos dentro do clero? Amigos de verdade leais, próximos e sinceros?

Demos um segundo passo. “Entender com”. Todos nós nascemos com um órgão chamado ínsula. A ínsula (ou córtex insular) é uma região do córtex cerebral humano, frequentemente descrita como um "quinto lobo" escondido profundamente no sulco lateral (fissura de Sylvius), entre os lobos temporal, parietal e frontal. Ela atua como um centro de integração multimodal, conectando informações sensoriais, emocionais e cognitivas. Uma das funções principais da ínsula encontra-se numa realidade que para muitos passa inadvertida, mas que para pessoas com fortes tendências suicidas é muito frequente. A toma de decisões; ela processa os riscos, estimula a recompensa e sabe confrontar a dor da frustração.

Muitas pessoas consagradas a Deus perdem o controle quando as suas decisões não correspondem ao ambiente, ao estilo e àquilo que é mais delicado ainda ao ser da sua própria percepção. Padres e bispos que podem viver numa ilha da fantasia. Grandes públicos que não correspondem ao fato real de uma eclesiologia concreta. Os conflitos econômicos, os investimentos altíssimos na empresa de cosmetologia e visagismo litúrgico, assim como também a crueldade do mundo dos negócios e dos investimentos. “Conseguimos encher o estádio”, “nunca antes um padre tinha trazido tanta gente”, “minha paróquia bomba”, etc.

A ínsula um dia não aguenta mais e se desdobra. Tudo na nossa vida tem validade e o mais normal é sermos esquecidos. O risco cognitivo é alto e aqui muitos dos que pensavam serem amados e reconhecidos devem enfrentar o isolamento e o abandono.

Entender com clareza, então, é o passo decisivo para não pensar que qualquer trauma ou conflito pode nos conduzir à autodestruição. Sapolsky afirma que tem muitos que vivem fazendo o bem sem se sentirem bem! Quase que dizer: sou perseverante, mas não sou fiel. Em outras palavras seria melhor ter desistido do que viver como estou vivendo.

Inúmeros os casos de padres e bispos que não se sentem bem onde estão e não entendem o que estão fazendo, e para isso não precisamos fazer uma tomografia de alta resolução. Entender é um dos pontos mais belos e nobres do nosso cérebro e, na medida em que entendermos o nosso lugar e a nossa real situação, nós nos tornamos muito mais generosos connosco mesmos.

Por último, aliviar a dor do outro. Segundo Freud o suicida leva dentro de si uma dor insuportável. Incapaz de nominar essa dor, tirando a vida, reflete o suicida, conseguirá paz.

Pode ser possível que a visão freudiana não esteja tão distante de outras teorias subsequentes; só que existe na dor uma linguagem nada bem tratada por muitos consagrados: a resignação. Uma atitude frequente e por vezes até elogiada. Como vives assim, também sofres. Diversas situações levam a pessoa a fugir da dor; só que na medida em que fugimos dela, vamos impedindo de descobrir quem realmente somos.

Alguns de nós temos em alta estima o desprendimento das coisas, das pessoas e dos locais onde passamos. Mas na verdade não é um ser desprendidos e sim resignados a que nada podemos ter como nosso no campo afetivo e sexual. Muitos celibatários vivem um celibato utilitarista ideal, já o Papa Francisco e os padres sinodais o teriam dito na exortação Amoris Laetitia: uma vida celibatária cômoda, mas não desprendida por amor.

O suicídio dentro do clero exige de todos nós uma tomada de posição muito mais frontal, onde o diálogo seja além de aprofundado, realista, e onde as situações mais inesperadas nos levem a entender, sentir e aliviar o coração de quem mais sofre, mantendo o pior dos mimetismos: o silêncio.

Padre Rafael Solano
Pároco da Paróquia Jesus Cristo Libertador

Informações da Notícia

Data de Publicação

Quarta-feira, 6 de maio de 2026

14:03

Pascom Arquidiocesana

Autor

Pascom Arquidiocesana

Tempo de Leitura

5 minutos

Categoria

Notícias

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