“A quem procurais?” (Jo 18,4) é a pergunta de Jesus àqueles que mesmo tendo ouvido d’Ele quem É ainda são incapazes de conhecê-lo e compreendê-lo, mesmo tendo o Deus vivo diante dos olhos são aos humildes que se revela. A tradição da Igreja condensa a profundidade da espiritualidade quaresmal dentro dos ritos vividos pelos cristãos na Semana Santa, ou Semana Maior, a fim de que “purificados por esses ritos anuais, nos preparemos reverentes para gozar os dons pascais”. Ocorrerá nos dias 14, 15 e 16 a celebração do Tríduo Pascal onde comemoraremos a Ceia do Senhor, sua Paixão e a Vigília Pascal, que entendendo esses três dias que são como um volvamos nossas almas ao clarear do novo e eterno dia.

A Quinta-feira Santa é a celebração onde foi-nos dado o Sacramento da Eucaristia, é tamanha a grandeza deste mistério que faz-se presente na Sagrada Liturgia na palavra do Senhor a Moisés: “Este dia será para vós uma festa memorável em honra do Senhor, que havei de celebrar por todas as gerações como instituição perpétua”. Não somente isso, mas também há o ato pelo qual foi intitulada de Missa do Lava-Pés. O serviço é parte necessária da vida cristã e da Igreja, a responsabilidade de uns com os outros e de ambos com Deus pelo próximo, faz com que possamos ser acolhidos mais intimamente em Cristo. Mesmo sobre quaisquer argumento disse Jesus: “Se eu não te lavar os pés, não terás parte comigo”. E enfim, tendo traçado o sinal da cruz, tomado parte com o Senhor pelo serviço e a comunhão, podemos juntos com Ele adentrar a santíssima e salvífica agonia.

O profundo silêncio da noite que se abate sobre o mundo, entre a quinta e a sexta, quando o seu Criador foi ferido por causa de nossos pecados, Ele que sendo Senhor, aprendeu a ser obediente até a morte, e morte de cruz, tornando-se causa de salvação para todos os que lhe obedecem. Prostrado em silêncio fica o sacerdote, ao entrar no templo. Tão expressivo som das matracas, que já quase não se ouve, em seu som direto, profundo e um tanto incômodo lembra a Igreja que é pela lança que abre o lado de Nosso Senhor, pelos pregos que perfuram mãos e pés, doloroso amor do Deus que se encarnou ouvindo incessantes vozes de blasfêmias e zombarias. Não há Missa neste dia, não há consagração, o único do ano, pois adoramos ao Senhor crucificado, o lenho da Cruz do qual pendeu a salvação do mundo. Alguém acaso pode questionar se é esta adoração maior que a Santa Missa. Não, mas uma parte da única Santa Missa do Tríduo Pascal. Ainda pode tornar com a pergunta “Mas se é uma só Missa, acaso permanece fora do templo?”, digo-te cristão que até os protestantes, ateus e iníquos sentem o peso da culpa que abate-se sobre nós nestes dias, ainda que não saibam de onde vem. Mantenha-se penoso é seu Senhor que foi sacrificado, e por você.

Eis que surge uma chama acesa, benzida, a luz do Cristo ressurreto, uma pequena chama no meio da escuridão que se levantou com o crepúsculo. Ouve atento essa silêncios, pequena e clara chama que na Palavra com que Deus criou o céu e a terra (cf. Gn 1-2) acendeu-se, que no cordeiro durante o sacrifício do nosso pai Abraão (cf. Gn 22,1-18) inflamou-se mais, na libertação da terra do Egito e a passagem no mar a pés enxutos (cf. Ex 14,15-15,1) inflamou-se mais, que chama e se compadece com misericórdia eterna (cf. Is 54,5-14) e num pacto eterno que sacia o homem integralmente (cf. Is 55,1-11) inflamou-se mais, que faz marchar até o esplendor do Senhor (cf. Br 3,9-15.32 – 4, 4) que nos promete derramar uma água pura e dar-nos um novo coração (Ez 36,16-17a.18-28) onde essa chama inflamou-se mais e seu objeto de iluminação fez-se carne, e habitou entre nós (Jo 1,14). Essa chama acesa frente a nossos olhos, a luz da fé que portamos e com ela dizemos “A minh’alma tem sede de Deus e deseja o Deus vivo”, d’Ele que ressuscitado dos mortos não morre mais e nos permite morrer com Ele para vivermos com Ele, mortos para o pecado e vivos para Deus (cf. Rm 6,3-11) e enfim junto ao alto brado dos santos de Deus cantar “Aleluia, Aleluia, Aleluia; Dai graças ao Senhor, porque ele é bom! ‘Eterna é a sua Misericórdia’”. E por fim, a semelhança do Senhor Jesus, vos pergunto, neste túmulo escuro e frio, penoso de morte onde vem chorar as lágrimas lastimosas, “Por que estais procurando entre os mortos aquele que está vivo? Ele não está aqui. Ressuscitou!” (cf. Lc 24,1-12). Olhe para frente, veja nas mão do sacerdote que se elevam, ali, ali está quem procura, o Deus Vivo, que encerra em si toda a graça. O Cristo que não nos deixou com sua morte às 15h da Sexta-feira da Paixão, mas vivificou sua Igreja, nós, nessa única e perfeita renovação incruenta de seu sacrifício na cruz, a Santa Missa do Tríduo Pascal.

Seminarista Matheus Petrachin Fernandes

Com a Carta Encíclica Fratelli Tutti, o Papa Francisco faz uma proposta bem ampla e profunda sobre a Fraternidade e a Amizade Social. Inspirando-se primeiramente em São Francisco de Assis quer falar de um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço. Foi também neste santo que se inspirou para escrever a encíclica Laudato Sii, sobre o cuidado da Casa Comum. No número 6 fala sobre a sua intenção: “Entrego esta encíclica social como humilde contribuição para a reflexão, a fim de que, perante as várias formas atuais de eliminar ou ignorar os outros, sejamos capazes de reagir com um novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras”(FT 06). 

 

Além disso, o Santo Padre conta que enquanto redigia esta encíclica irrompeu de forma inesperada a pandemia do Covid -19 que “deixou a descoberto as nossas falsas seguranças”(FT 07). Constata que a incapacidade das diversas nações de agirem em conjunto, apesar de estarem superconectadas,  mostrou a dificuldade de resolver os problemas que afetam a todos. 

 

A pandemia da COVID–19 já ultrapassou um ano, ultrapassou 350 mil mortos e milhões de infectados e não dá sinais de arrefecimento. Neste momento, todas as luzes de alerta estão ligadas em relação aos críticos indicadores de agravamento da pandemia no Brasil. E o mundo nos olha com perplexidade. Uma das situações mais constrangedoras e críticas que enfrentamos é a taxa de ocupação dos leitos de UTI com pacientes da COVID – 19, mas também a rapidez do agravamento da crise e do colapso do nosso sistema de saúde.

 

Devido a essa sobrecarga do sistema, os trabalhadores da saúde têm enfrentado uma carga excessiva de trabalho, que resulta em adoecimento. Acrescente-se a insuficiência de quadros para dar conta dessa grande e demorada pandemia, a percepção de que o pessoal da linha de frente da assistência está convivendo com outros fatores de tensão: falta de oxigênio para os pacientes em alguns locais, baixa de estoques de analgésicos, sedativos e bloqueadores musculares usados para a intubação de pacientes em UTIs, etc. Além disso, há muitos que querem negar a existência do vírus e a gravidade da pandemia.

 

A incapacidade das diversas nações de agirem em conjunto, apesar de estarem superconectadas,  mostrou a dificuldade de resolver os problemas que nos afetam a todos 

 

É sabido que cientistas do mundo inteiro vêm orientando que três ações são fundamentais no combate à pandemia: o uso das máscaras e a limpeza constante das mãos; o distanciamento social com lockdown nas situações mais graves; e a vacinação em massa da população. Com relação à campanha de vacinação, os números estão muito aquém do necessário. Falta muito para que o Brasil consiga vacinar os grupos prioritários, tais como, idosos, profissionais da linha de frente, indígenas, indivíduos com comorbidades e profissionais do ensino e das forças de segurança, etc.

 

Assim como o tempo vai passando, as comunidades cristãs também vão trabalhando no sentido de se entender com relação à retomada das atividades religiosas e, certamente, das atividades como um todo. É bom ir se entendendo com várias situações novas que se nos apresentarão: o trabalho das equipes de Pascom em nossas paróquias e comunidades; celebrações on-line; reuniões de organização de pastorais e movimentos on-line; catequeses presenciais e remotas; o problema da sustentabilidade dos trabalhos da Igreja; redescobertas e reestruturações que deverão ocorrer; a importância de uma boa organização ao redor do dízimo; uma grande renovação dos ministérios e ministros; necessidade de trabalhar pela diminuição das polarizações, etc.

 

Que todos sejamos abençoados com a vacina o mais rápido possível.  Que a preservação da vida de todos seja o nosso intento.

Dom Geremias Steinmetz
Arcebispo de Londrina

 

Estamos nos aproximando, mais uma vez, da celebração da verdade fundamental da fé que é a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. De maneira um pouco mais ampla, a celebração do Mistério Pascal inclui também a paixão, a crucificação, o sepultamento e a ascensão de Nosso Senhor aos céus. Na Semana Santa, além de celebrar todas estas verdades, celebra-se ainda a vida da Igreja, sua significância e atuação para levar à salvação que brota destes mistérios todos, à humanidade e às pessoas de maneira particular.

 

A verdade da Ressurreição de Jesus “constitui antes de tudo a confirmação de tudo o que o próprio Cristo fez e ensinou. Todas as verdades, mesmo as mais inacessíveis ao espírito humano, encontram a sua justificação se ao ressuscitar Cristo deu a prova definitiva que havia prometido, da sua autoridade divina” (CIC 651). Jesus sempre falou a partir desta realidade. Quando admoestava, curava, pregava, ensinava, etc. Em momentos mais centrais até chamava atenção para que tudo fosse interpretado a partir da sua “paixão, morte de cruz e ressurreição”. Significa que a Ressurreição é o grande NOVO da fé. Algo que de fato diferencia a fé cristã de muitos outros modos de conceber a fé.

 

O Catecismo da Igreja Católica é bem categórico ao afirmar: “O mistério da Ressurreição de Cristo é um acontecimento real que teve manifestações historicamente constatadas, como atesta o Novo Testamento” (CIC 639). Os textos bíblicos mais destacados são: 1Cor 15, 3-4, onde evidencia a viva tradição da Ressurreição. Lc 24,5-6 mostra que no conjunto dos acontecimentos da Páscoa, o primeiro elemento que se depara é o sepulcro vazio, mas reconhece que ele não constitui uma prova irrefutável.  Os passos rumo ao reconhecimento do fato da ressurreição são constituídos pelas ‘santas mulheres’ (Lc 24,3.22-23), em seguida Pedro (Lc 24,12), o discípulo que Jesus amava (Jo 20,2; Jo 20,8). Também as aparições do Ressuscitado fortalecem o modo “categórico” com o qual fala o Catecismo.

 

“O abalo provocado pela paixão e morte na cruz foi tão grande que os discípulos (ao menos alguns deles) não creram de imediato na notícia da ressurreição” (CIC 643). O Apóstolo Paulo proclama que “se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia é também a vossa fé” (1 Cor 15,14). Por ela a graça de Deus nos é restituída e assim podemos viver uma vida nova. A vida nova “consiste na vitória sobre a morte do pecado e na nova participação na graça” (654). Além disso, a Ressurreição de Cristo é “princípio e fonte da nossa ressurreição futura” (655). 

São verdades que iluminam a vida do homem. Crer em Deus Vivo e atuante na história faz toda a diferença. As intervenções d’Ele sempre nos empurram para a defesa e a construção da vida das pessoas, especialmente os mais pobres. A libertação das amarras que prendem os mais frágeis é missão verdadeiramente evangélica e está em consonância com este Mistério profundo da fé. A Doutrina da Igreja é, justamente, a reflexão e a aplicação no dia a dia da sociedade, de princípios que brotam da fé na Ressurreição do Senhor e que ajudam a realizar o ser humano em toda a sua plenitude de acordo com a sua vocação manifestada no desejo de Deus ao ressuscitar o seu Filho e não de deixa-lo abandonado na morte. 

Dom Geremias Steinmetz
Arcebispo de Londrina

 

Artigo publicado na Revista Comunidade edição março 2021

Fotos: Pe. Lawrence Lew OP

 

“Não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados” (Mt 1, 20-21).

 

Nossa vida é marcada por muitas situações que não compreendemos. Em algumas circunstâncias, nunca daremos por satisfeitas as explicações. Sendo experiências muito difíceis, tais como: perda, humilhação, doença, acidente, discriminação, etc. Estas realidades criam cicatrizes visíveis na nossa história.

 

São José, um homem que viveu e praticou em profundidade a fé no Deus da vida, homem do SILÊNCIO, ou seja, da oração silenciosa, não se entregou ao desânimo e, por isso, sempre teve na sua vida a seiva da vida para se reconciliar com sua história, ser sempre uma pessoa resolvida. Viveu, apesar dos grandes desafios, a alegria (não euforia), com Maria e Jesus, o seu filho putativo.

 

Olhando para a história de São José, vemos claramente que sua vida espiritual é um alicerce para o cotidiano; é um convite a nós cristãos a vivermos uma vida espiritual profunda, sempre marcada pela oração silenciosa, este é o verdadeiro caminho que todos os cristãos podem trilhar, no qual todas as “dificuldades” podem ser acolhidas e vencidas.

 

José sempre soube se reconciliar com sua história, porque estava sempre pronto a entregar sua vida à vontade de Deus. Assim falou o Papa Francisco: “A vontade de Deus, a sua história e o seu projeto passam também através da angústia de José. Assim, ele ensina-nos que ter fé em Deus inclui também acreditar que Ele pode intervir inclusive através dos nossos medos, das nossas fragilidades, da nossa fraqueza. E ensina-nos que, no meio das tempestades da vida, não devemos ter medo de deixar a Deus o timão da nossa barca. Por vezes queremos controlar tudo, mas o olhar d’Ele vê sempre mais longe” (Patris Corde, 2).

 

Neste ano de São José, eu e você somos convidados a olhar com mais atenção para esta figura bíblica, olhar para o nosso passado e aprender dele e com ele a nos reconciliarmos com nossa história de vida. Com esta pandemia da COVID-19 aprendemos o quanto somos frágeis e que num piscar de olhos podemos perder pessoas muito queridas nossas. Por isso ficaremos os dias que nos faltam lamentando, odiando, não perdoando? Sempre infelizes? Busquemos, então, a prática da reconciliação com nossa história vida.

 

Diante de São José e do seu filho putativo, somos chamados a observar nossas cicatrizes. Elas têm dois significados. Primeiro, sinais de derrota, humilhação, marcas de um momento terrível, de dor que nos leva a olhar para sempre nestes terríveis sinais. Segundo, me lembro de Jesus (Jo 20,20). As cicatrizes nas mãos e no lado não eram de derrota, mas de que superou, de que venceu, mesmo que foi terrível e sabemos que foi, mas Ele venceu. Muito aprendeu de seu pai José.

 

Aproveite o ano de São José e reconcilie-se com sua história.

 

Pe. Joel Ribeiro Medeiros
Pároco da Paróquia São José da cidade de Rolândia

 

Quaresma é um tempo de penitência pré-pascal, período de quarenta dias que antecede o Tríduo Pascal, destinado à preparação dos fiéis, especialmente dos candidatos ao Batismo, para a celebração da Páscoa. Este tempo litúrgico existe na Igreja desde o século II, quando os cristãos se preparavam para a celebração da noite de Páscoa mediante um jejum penitencial de dois dias. No século III este jejum já foi estendido a uma semana de duração. A caracterização desses 40 dias quanto ao seu conteúdo foi determinada essencialmente pelas instituições do catecumenato e da penitência eclesiástica.

 

 As comunidades se associavam solidariamente aos preparativos dos candidatos ao batismo e dos penitentes. Tendo em vista a assembleia pascal decisiva em torno da mesa do Senhor, todo ódio e toda contenda deveriam ter sido afastados e os membros da comunidade unir-se no amor fraternal renovado. Era essa a finalidade do jejum como possibilitador de esmolas, da multiplicação de celebrações e de catequeses.

 

O Concilio Vaticano II sintetizou toda a rica história da Quaresma em algumas orientações valiosas: “Destaquem-se tanto na Liturgia como na catequese litúrgica, os dois aspectos característicos do tempo quaresmal, que pretende, sobretudo através da recordação ou preparação do Batismo e pela Penitência, preparar os fiéis, que devem ouvir com mais frequência a Palavra de Deus e dar-se à oração com mais insistência, para a celebração do mistério pascal” (SC 109). 

 

Sugere ainda utilizar com “abundância os elementos batismais”. O mesmo se diga dos elementos penitenciais. Quanto à catequese “ensine-se as consequências sociais do pecado; a natureza própria da penitência, que é a ojeriza ao pecado por ser ofensa a Deus; nem se deve esquecer a parte da Igreja na prática penitencial, nem deixar de recomendar a oração pelos pecadores” (SC 109). Além do mais, ensina que “a penitência quaresmal deve ser também externa e social, que não só interna e individual” (SC 110).

 

Com estas orientações chegamos ao nosso tempo. Atualmente procura-se valorizar muito na Quaresma a pregação da Palavra de Deus, a oração, a religiosidade popular, a caridade, pois ela apaga uma multidão de pecados. Foi neste “caldo cultural” que nasceu a Campanha da Fraternidade. Esta procura ser uma forte sugestão de conversão interior, pessoal e social. Aponta para questões urgentes na sociedade apontando para a Vida e Vida em plenitude (Jo, 10,10). 

 

Poderíamos recordar de muitos temas e do modo vigoroso como a Campanha da Fraternidade se desenvolveu e muitos frutos que produziu em várias décadas de história. Em 2021 a CF Ecumênica com o tema: Fraternidade e diálogo: compromisso de Amor. O Lema: Cristo é a nossa paz: do que era dividido, faz uma unidade (Ef 2,14). Além das sugestões de vivência da Quaresma que já estão no texto, acrescento, por conta da CF 2021-Ecumênica: Promoção do Diálogo Ecumênico – Semana de Oração pela Unidade Cristã; convivência inter-religiosa; esforçar-se por superar a violência; superação da violência contra as mulheres; incentivar o cuidado com a Casa Comum.

 

Que todos possam aproveitar este momento histórico “refletindo sobre possíveis caminhos de diálogo e a construção de pontes de amor e paz em lugar dos muros de ódio para explicitar os sinais da ‘nova humanidade nascida em Cristo’ que está presente entre nós” (Texto Base, 2).

Dom Geremias Steinmetz
Arcebispo de Londrina

 

Foto destaque: Marilene Maria Souza

*Artigo publicado na Revista Comunidade Edição Fevereiro 2021

Precisamos ser resilientes espiritualmente para termos uma fé inabalável neste Jesus menino

 

2020 está se findando, e com ele iniciamos um novo ano litúrgico em nossa Igreja. Dia 29 de novembro damos início ao tempo do Advento: preparação para o Natal do Senhor Jesus! Em meio a um ano tão atípico, com uma pandemia que abalou o Brasil e o mundo, um vírus tão pequeno, o Covid-19, mas tão grande em consequências na saúde física e mental de todos nós, a palavra de ordem sem dúvida é a resiliência.

 

Se buscarmos a definição de resiliência na Física encontraremos que é a propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica. Já na Psicologia, é a capacidade do indivíduo lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas – choque, estresse, algum tipo de evento traumático, entre outros. Mas aqui nos interessa adentrarmos no âmbito da resiliência espiritual, para bem nos prepararmos para este tempo de Advento.

 

Tomamos a liberdade aqui de recordar o dia 27 de março, em um imenso gesto de amor pela humanidade, com a Praça São Pedro vazia, o Santo Padre, o Papa Francisco, dirigiu um momento de oração no átrio da Basílica de São Pedro, depois rezou com a Palavra de Deus e procedeu a Adoração ao Santíssimo Sacramento, concedendo ao final a Bênção Urbi et Orbi extraordinária. Uma das frases que mais ecoou pelos quatro cantos da Terra é que o Sumo Pontífice não estava sozinho naquela praça, mas cada um de nós estávamos lá, trazendo nossas dores, nossos medos, uma infinita quantidade de indagações que guardávamos em nossas mentes e corações do que estaria por vir ainda. Mais de oito meses se passaram desde o início da pandemia no Brasil e as incertezas ainda continuam e poderão continuar por mais um tempo. Em todo este período, o Papa Francisco tem nos convidado a diversos momentos de oração e reflexão, sem cessar, nesta busca pela resiliência espiritual.

 

Como numa grande maratona de revezamento, vamos nos cansando em alguns trechos da corrida, precisando recarregar nossas baterias em pontos do caminho. Grandes figuras bíblicas do Antigo Testamento tiveram muita resiliência espiritual e podem nos ensinar a passar por essa maratona por vezes tão caótica que estamos vivenciando. Moisés é um grande exemplo, sofreu pressões de toda ordem, caminhando com aquele povo para a terra prometida, mas buscava sempre a face de Deus para se refazer e dar continuidade em sua missão. Nos Salmos são relatadas as dores emocionais de Davi, seus conflitos internos, suas lutas, mas, quanto mais adorava a Deus, saia fortalecido para concluir os propósitos designados para ele.

 

No Novo Testamento os relatos de resiliência espiritual não são diferentes. Talvez um dos maiores ícones seja o apóstolo Paulo, com sua experiência de perseguição, fome, cárcere, rejeição e tantos outros revezes que ele enfrentou, mas que expressou em um dos versículos que mais nos dão força e nos conclama a ser resilientes: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4,13). A nossa força vem de Deus, da sua Igreja que nos dispensa os sacramentos, da nossa fé em Jesus Cristo, nosso único e verdadeiro Salvador. Mesmo Jesus, sendo divino, também se fez humano por amor a nós, precisou ser resiliente em diversos momentos de sua vida terrena. Após ser batizado por João Batista no Jordão, Jesus passou 40 dias no deserto, foi tentado, sentiu fome, lhe foi oferecido Poder, Prazer e Posse pelo inimigo de Deus, os três “p” que continuam assolando-nos até os dias de hoje. Porém, Ele foi resiliente espiritualmente, resistiu bravamente por meio da oração, da renúncia, dos sacrifícios, das mortificações. Ao longo de toda a sua vida pública, Jesus foi rejeitado, criticado, sofreu a paixão e morte na cruz de forma horrenda, mas aceitou o propósito eterno que Ele veio cumprir, a redenção dos nossos pecados.

 

Contudo, lendo essas frases, você pode estar se questionando, olha, mas eu não sou Jesus, eu não sou esses personagens bíblicos citados, eu sou bem humano! De fato, se olharmos somente para nossa humanidade corremos o risco de sucumbir, como os discípulos de Emaús, logo após a morte de Jesus. Estavam desanimados, pensando que tudo aquilo que haviam vivido com o mestre tinha sido em vão, um fracasso total. Mas em uma experiência pós-pascal Jesus caminha com eles, os discípulos sentem o coração arder, o convidam para ficar com eles, reconhecendo-o somente ao partir o Pão. Assim precisa ser nossa experiência com Cristo, precisamos repetir como os discípulos de Emaús: “Fica conosco Senhor” (Lc 21,29). O grande segredo para nossa resiliência é ficarmos com Jesus na Eucaristia, nas Escrituras, nos sacramentos e na oração!

 

Este mesmo Jesus que há mais de dois mil anos sofreu a paixão, morte e ressureição com resiliência, é o mesmo que nós podemos esperar como menino que nasce em uma manjedoura e que vem para continuar nos ensinando que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida.  A Igreja nos convida neste tempo de Advento, a recordar as palavras de Paulo aos Romanos “A esperança não decepciona…” (Rm 5,5). Advento como tempo de preparação e esperança em um 2021 melhor, seres humanos melhores, uma Casa Comum que é nosso planeta, mas bem cuidado! Utopia? Romantismo? Loucura? Não! Precisamos ser resilientes espiritualmente para termos uma fé inabalável neste Jesus menino!

 

Aproveitemos este tempo do Advento para fazer uma real avaliação do nosso ano, dos nossos relacionamentos pessoais e profissionais, dos nossos trabalhos pastorais tão prejudicados pela pandemia em 2020. É oportuno esse exame de consciência, a busca do arrependimento e a procura, caso sinta a necessidade, do sacramento da confissão. Assim como preparamos nossas casas com uma bonita decoração, pratos apetitosos e presentes embaixo da árvore de Natal, o essencial não pode ser esquecido: Jesus!

 

O Divino Salvador em sua infinita misericórdia está ansioso pela abertura do seu coração, quer te encontrar na Eucaristia, na Palavra e nos momentos de oração neste Advento. Quer te encontrar também no Natal, na pessoa dos mais necessitados, daqueles que pouco têm em suas mesas para comer, outros tantos que estão carentes de um ombro amigo para serem escutados. Iremos encontrar Jesus neste Advento sendo profetas e denunciando a injustiça, a corrupção, o mau uso do dinheiro público, a vida sexual desregrada, o aborto e todos os males que atentam contra as leis de Deus. Que menino Jesus você está esperando neste Advento? Como Ele vai te encontrar nesse Natal?

Jefferson Bassetto
Seminarista de teologia da Arquidiocese de Londrina

No dia 3 de Outubro de 2020 o Papa Francisco publicou a Carta Encíclica Fratelli Tutti, sobre a fraternidade e a amizade social. É uma reflexão sobre os ensinamentos de vida que a pandemia da Covid -19 sugere a todas as pessoas, “pois que deixou a descoberto as nossas falsas seguranças (n.7). 

 

Logo no primeiro número cita São Francisco de Assis, em quem se inspira, para propor uma “forma de vida com sabor a Evangelho”. Aprofundando a expressão Fratelli Tutti insiste: “Com poucas e simples palavras, explicou o essencial duma fraternidade aberta, que permite reconhecer, valorizar e amar todas as pessoas independentemente da sua proximidade física, do ponto da terra onde cada uma nasceu ou habita” (n. 1). O Santo de Assisque se sentia irmão do sol, do mar e do vento, sentia-se ainda mais unido aos que eram da sua própria carne. Semeou paz por toda a parte e andou junto dos pobres, abandonados, doentes, descartados, dos últimos” (n.2). Cita dois encontros importantes que o Santo Padre teve e que o inspiraram fortemente: “Se na redação da Laudato si tive uma fonte de inspiração no meu irmão Bartolomeu, o Patriarca ortodoxo que propunha com grande vigor o cuidado da criação, agora senti-me especialmente estimulado pelo grande Ímã Ahmad Al-Tayyeb, com quem me encontrei, em Abu Dhabi, para lembrar que Deus «criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade, e os chamou a conviver entre si como irmãos” (n.5). 

 

Foto Vatican Media

Após todas estas inspirações tão amplas, o Papa mostra claramente o seu objetivo com a encíclica: “Neste tempo que nos cabe viver, reconhecendo a dignidade de cada pessoa humana, possamos fazer renascer, entre todos o anseio mundial de fraternidade” (n.8). 

 

O conteúdo da encíclica é desenvolvido em oito capítulos: I. As sombras de um mundo fechado; II. Um estranho no caminho; III.Pensar e gerar um mundo aberto; IV. Um coração aberto ao mundo inteiro; V. A política melhor; VI. Diálogo e amizade social; VII. Percursos de um novo encontro; VIII. As religiões ao serviço da fraternidade no mundo. 

 

No primeiro capítulo, o papa faz uma exaustiva análise sobre as sombras no mundo que dificultam uma cultura de fraternidade melhor pronunciada. Lembra que nos últimos anos o mundo está voltando para trás nas questões de integração, dando sinais de regressão e reacendendo conflitos que se esperavam superados; favorece uma perda do sentido da história que desagrega ainda mais; denuncia que não há um projeto para todos e que acontece um verdadeiro descarte mundial em que uns têm mais direitos que outros, especialmente os direitos humanos que não são suficientemente universais. 

 

Ainda no primeiro capítulo, o papa cita a problemática das migrações, das fronteiras, do meio ambiente, etc. Mas ele quer falar, sobretudo, de Esperança: Ela “é ousada, sabe olhar para além das comodidades pessoais, das pequenas seguranças e compensações que reduzem o horizonte, para se abrir aos grandes ideais que tornam a vida mais bela e digna” (n.55). No segundo capítulo faz uma reflexão sobre o Evangelho do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37). Ali busca a base para falar sobre a fraternidade e a amizade social. Descreve com calma todos os detalhes da parábola colocando a inspiração de tudo o que vai dizer no agir de Jesus Cristo.  Nos capítulos restantes busca indicar caminhos para a construção de um mundo mais aberto para todos e que possam usufruir das muitas possibilidades que a tecnologia avançada nos oferecem.

 

Enfim, a pandemia da COVID-19 nos colocou a todos no mesmo barco. Temos nas mãos uma oportunidade histórica de darmos um salto de qualidade na fraternidade e nas relações sociais entre todos os povos do mundo. No último número o Santo Padre sugere uma oração ao Criador, muito rica em conteúdo e rezando pela causa que propõe na nova Encíclica:

Oração ao Criador

Senhor e Pai da humanidade,
que criastes todos os seres humanos com a mesma dignidade,
infundi nos nossos corações um espírito fraterno.
Inspirai-nos o sonho de um novo encontro, de diálogo, de justiça e de paz.
Estimulai-nos a criar sociedades mais sadias e um mundo mais digno,
sem fome, sem pobreza, sem violência, sem guerras.

Que o nosso coração se abra
a todos os povos e nações da terra,
para reconhecer o bem e a beleza
que semeastes em cada um deles,
para estabelecer laços de unidade, de projetos comuns,
de esperanças compartilhadas. Amém.

 

Dom Geremias Steinmetz
Arcebispo de Londrina

 

Fotos:  Vatican Media

Artigo publicado na Revista Comunidade da Arquidiocese de Londrina, Edição Novembro de 2021.

 

Vivemos uma nova realidade: a pandemia do Covid-19. Há mais de seis meses uma necessidade surgiu: o distanciamento físico entre as pessoas para a preservação da vida. Com isso, novos formatos de celebrações e eventos foram sendo implementados, como as missas on-line, formações e momentos de oração pela internet. Alguns sacramentos e a catequese foram postergados, sonhos foram adiados, planos foram mudados. Mas, é ainda possível ser missionário neste momento tão desafiante de isolamento social?

 

Outubro é o mês missionário por excelência. Missão é sempre sair de si e ir em direção ao outro, anunciando Jesus Cristo. Papa Francisco nos chama a atenção constantemente para que sejamos uma Igreja em Saída. Mas como sair, quando somos chamados a ficar em casa? A alternativa é o areópago digital, espaço agora das “lives” no Facebook e Instagram, das reuniões no Google Meet, no Zoom e outras ferramentas que eram prioritariamente usadas no mundo dos negócios ou da educação e que passaram a ser território também de bispos, padres, leigos e leigas, portanto, território de missão!

 

Neste tempo pandêmico, as pessoas ficam muito mais tempo em casa e, portanto, têm mais tempo livre para acessar os meios de comunicação disponíveis em suas residências, seja TV, rádio ou internet. Assim como as formas de consumo de bens em geral estão mudando consideravelmente nesses últimos meses, a mudança no consumo de informação não poderia ser diferente e precisamos estar atentos a esta oportunidade de evangelização. Ainda que nenhum dos sacramentos possam efetivamente ser recebidos de forma virtual e, na medida do possível, respeitando todas as medidas sanitárias, eles precisam ser buscados fisicamente. Porém, há uma dificuldade para a preparação presencial do povo de Deus para o recebimento dos mesmos. Há ainda impossibilidade para visitação de famílias, idosos, crianças e adolescentes para realizar essa missão presencial. Assim, a internet continua sendo apontada como uma alternativa viável!

 

Sempre muito pastoral, em sua nova Encíclica “Fratelli Tutti”, “Todos Irmãos” lançada no último dia 4 de outubro, em Assis, Itália, Papa Francisco nos exorta pela busca da fraternidade e da amizade social. Transcrevemos aqui o primeiro ponto do documento:“‘FRATELLI TUTTI’: escrevia São Francisco de Assis, dirigindo-se a seus irmãos e irmãs para lhes propor uma forma de vida com sabor a Evangelho. Destes conselhos, quero destacar o convite a um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço; nele declara feliz quem ama o outro, ‘o seu irmão, tanto quando está longe, como quando está junto de si’. Com poucas e simples palavras, explicou o essencial duma fraternidade aberta, que permite reconhecer, valorizar e amar todas as pessoas independentemente da sua proximidade física, do ponto da terra onde cada uma nasceu ou habita”. Com esta exortação, o Papa Francisco nos convida a buscarmos a criatividade por meio do Espírito Santo para amar o irmão de perto ou de longe em tempos de pandemia e assim realizarmos a missão de encontrar Jesus no próximo!

 

Com a trágica crise dos últimos meses, a economia, jogos políticos e interesses escusos têm estado acima da dignidade humana.  Com a correria histérica que vivíamos, a pandemia do COVID-19 fez-nos parar um pouco. Por vezes já estávamos bastante insensíveis com o sofrimento do outro, tomando como corriqueiro os fatos degradantes de nossa sociedade.  Muitas pessoas isoladas pela pandemia estão confinadas em suas casas ou outros que nem casa têm, sofrem mais ainda nas ruas. Um bonito trabalho unindo a Arquidiocese de Londrina por meio da Cáritas e a Secretaria de Assistência Social de Londrina está sendo realizado desde o início da pandemia, acolhendo moradores em situação de rua nas diversas casas de retiro da arquidiocese, dando dignidade a esses irmãos e irmãs já fragilizados. Isso é um ato concreto de missão.

 

No que tange ainda à internet, de forma muito lúcida, o Sumo Pontífice, nos alerta para os perigos da onda digital no número 71 da Fratelli Tutti: “Entretanto os movimentos digitais de ódio e destruição não constituem – como alguns pretendem fazer crer – uma ótima forma de mútua ajuda, mas meras associações contra um inimigo. Além disso, ‘os meios de comunicação digitais podem expor ao risco de dependência, isolamento e perda progressiva de contato com a realidade concreta, dificultando o desenvolvimento de relações interpessoais autênticas’. Fazem falta gestos físicos, expressões do rosto, silêncios, linguagem corpórea e até o perfume, o tremor das mãos, o rubor, a transpiração, porque tudo isso fala e faz parte da comunicação humana. As relações digitais, que dispensam da fadiga de cultivar uma amizade, uma reciprocidade estável e até um consenso que amadurece com o tempo, têm aparência de sociabilidade, mas não constroem verdadeiramente um ‘nós’; na verdade, habitualmente dissimulam e ampliam o mesmo individualismo que se manifesta na xenofobia e no desprezo dos frágeis. A conexão digital não basta para lançar pontes, não é capaz de unir a humanidade”. Sendo assim, na medida do possível, respeitando as leis impostas para a preservação da saúde, precisamos, pouco a pouco, retomar o contato missionário físico, participar dos sacramentos, insistir no olho-no-olho, afinal o ser humano é relacional, e precisa disso para alcançar sua sanidade mental, física e espiritual.

 

Com equilíbrio, em tempos de pandemia, não podemos deixar de ser missionários. Um telefonema (tão raro hoje em tempos de WhatsApp), uma mensagem de conforto, um pão feito em casa, um pedaço de bolo, uma oração feita de coração, enfim, tudo que estiver ao nosso alcance, pode ser feito pelo nosso próximo e com certeza agradará o coração de Deus. Portanto, invoquemos o Espírito Santo para que sejamos: irmãos todos missionários.

Jefferson Bassetto
Seminarista da teologia da Arquidiocese de Londrina

A Semana Nacional da Vida ConSagrada¹, tem como tema “Amados e Chamados por Deus”, o mesmo do mês Vocacional. Esse tema carrega uma expressão cara de significado para a vida de Batizados, pois, “chamados”, o primeiro chamado é à vida! Chamados por Deus à vida pelo seu amor infinito e incondicional, com o Sopro da Vida.

 

 A “Vida ConSagrada” é uma vocação de total entrega a Deus sumamente amado, em que a pessoa chamada coloca toda sua vida a serviço de Deus (cf. LG 44).

 

A “Vida ConSagrada” é composta por “homens e mulheres que, dóceis ao chamamento do Pai e à moção do Espírito, escolheram este caminho de especial seguimento de Cristo, para se dedicarem a Ele de coração ‘indiviso’ (cf. 1 Cor 7,34). Também eles deixaram tudo, como os Apóstolos, para estar com Cristo e colocar-se, como Ele, ao serviço de Deus e dos irmãos” (VC 1).

 

Os Religiosos e Religiosas, manifestam, ao longo da história, “o mistério e a missão da Igreja, graças aos múltiplos carismas de vida espiritual e apostólica que o Espírito Santo lhes distribuía, e deste modo concorreram também para renovar a sociedade” (VC 1). Os religiosos e religiosas, através dos sagrados votos de pobreza, castidade e obediência, são convidados a colocarem toda sua vida na implantação do Reino, como “instrumentos da missão de Deus”.

 

Ser Religioso e Religiosa é viver segundo o sopro do Espírito Santo! Sem o Espírito Santo, Deus fica distante e não há vida. A “Vida ConSagrada” vivida no murmúrio do Espírito é vida de Santidade, é testemunho anunciado profeticamente. Testemunho dado hoje por muitos Irmãos e Irmãs da “Vida ConSagrada”, “Amados e chamados por Deus”, que doam suas vidas por causa do Reino. Embora o nosso momento seja de celebração da “Vida ConSagrada”, como não recordar os Religiosos e Religiosas ceifados por este novo vírus nestes tempos de pandemia! Queremos celebrar os seus testemunhos de pobreza, de simplicidade, de desapego, de doação total… e também de esperança!

 

O que espera de nós o atual momento da “Vida ConSagrada”? Assim como em diversas outras circunstâncias:  o testemunho da perseverança!

 

Há poucos dias, como “Vida ConSagrada”, tivemos uma reunião online de coordenadores dos núcleos do Regional da CRB. Durante o momento de partilha alguém recordou um aspecto belíssimo, que faz reconhecer a face da “Vida ConSagrada”, que é a vida fraterna. Partilhou que nessa comunidade se estaria reaprendendo, de forma mais aprofundada, a conviver em fraternidade, a estar com o irmão. Imaginei aquela correria do cotidiano de muitos irmãos e irmãs religiosas, e que durante o tempo de pandemia, devido ao distanciamento social, permaneceram em casa podendo participar e viver de forma mais intensa muitos momentos da vida em comum: oração, refeição e até mesmo os momentos de partilha fraterna. Uma vida em comunidade, vivida segundo o Evangelho, que dá um testemunho profético do Reino, “de tal modo que aqueles que veem uma comunidade capaz de amar em um ambiente de ódio, capaz de justiça onde há injustiças, de entrega generosa onde há egoísmos, descobrem aí Aquele que salva” (CLAR 1973).

 

A proposta, pois, do tema para a Semana Nacional da “Vida ConSagrada” enseja o desejo de que cada Religioso e Religiosa sintam-se verdadeiramente “Amados e Chamados por Deus”! Isso não especifica apenas que és importante para Deus, mas, que fazes parte da missão salvífica de Cristo! Assim, nesta comemoração do dia da “Vida ConSagrada”, cada Religioso e Religiosa renovemos nosso propósito de participar da missão da construção do Reino que se concretiza a cada dia. E peçamos que o Senhor da messe, faça ressoar em muitos outros corações a alegria de serem “Amados e Chamados por Deus”.

 

Frei Wainer José de Queiroz fmm
Coordenador da CRB do Núcleo de Londrina.

 

 

 

 

 

¹“A palavra SAGRADA. Refere-se à Vida! É, por si só, sagrada! É Dom! Ao responder o chamado, esta vida se consagra, se oferece, se coloca aos cuidados de Deus, se coloca a serviço do Reino” (CRB 2020).

 

 

 

Em fevereiro de 2020 participei, com os bispos do Regional Sul II, da minha primeira Visita Ad Limina Apostolorum. É a visita que todos os bispos realizam como dever de ofício, aos túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo, em Roma, e ao Sucessor de Pedro, o Santo Padre o Papa. Ela tem também o caráter de manifestação da unidade dos bispos com o Santo Padre. Não é, porém, uma simples viagem de turismo na Cidade Eterna, antes, é muito trabalhosa porque nela se incluem visitas a vários departamentos que ajudam o Papa a governar a Igreja Universal que ele preside “na caridade”. Portanto, realizamos visitas a várias Congregações, Dicastérios, Secretariados e as quatro Basílicas romanas: São João do Latrão; Santa Maria Maior; São Paulo fora dos Muros e São Pedro no Vaticano. Todo o programa foi preparado com cuidado e com antecedência, para que a visita propriamente pudesse ser proveitosa o mais possível. Os relatórios das dioceses e arquidioceses foram enviados alguns meses antes para que, em Roma, soubessem da realidade das nossas Igrejas Particulares.

 

A Visita Ad Limina reveste-se de um caráter espiritual e pastoral muito denso. Primeiramente a lembrança dos santos apóstolos. De fato Pedro e Paulo derramaram o seu sangue por causa da fé em Jesus Cristo. Enviados que foram pelo próprio Cristo a testemunhar o seu Mistério, cumpriram a missão até a morte. Diz a história que Pedro morreu crucificado de “cabeça para baixo”, por não se achar digno de morrer como o Mestre. Paulo, por sua vez, morreu decapitado.  Pedro construiu a Igreja sobre a herança de Israel e Paulo levou o Evangelho para o mundo pagão, ou seja, fora da cultura israelita. Neste sentido Pedro representa mais a instituição, (rígido, jurídico, organizacional), e Paulo o carisma (missionário, mais livre, deixando falar mais o Espírito Santo e lendo os sinais dos tempos). Talvez tenha até havido conflitos entre os dois, mas, cada um à sua maneira acentuou questões importantes da vida da Igreja. Além disso, eles lembram os muitos cristãos que derramaram o seu sangue por causa da fé durante a história e todos aqueles que são os “mártires do cotidiano”. O Papa Francisco, na Exortação Gaudete et Exsultate, sobre a santidade nos nossos tempos, usa o termo “santos de pé de porta” para falar dessa realidade.

 

A visita, normalmente, mais esperada é aquela feita ao Santo Padre. Para todos nós, de fato, foi muito marcante a conversa com o Papa Francisco por várias razões: 1. O nosso horário com ele estava marcado para as 10:30, mas às 09:30 ele já estava nos esperando e nos recebeu a todos cumprimentando-nos na porta de entrada da sala. 2. A duração da nossa estada com ele foi de 03 horas e 10 minutos. 3. Todos os bispos tiveram a liberdade de dirigir alguma pergunta ao Papa e ele respondia com muito conhecimento e liberdade. 4. Nas respostas manifestava conhecimento global da Igreja. Citava exemplos de todo o mundo e justificava suas respostas citando pensadores, teólogos, pastoralistas,  inclusive sugerindo a leitura de artigos e livros atuais. 5. As perguntas giraram ao redor de vários assuntos: Formação dos padres, missão dos bispos, missionariedade, críticas ao Santo Padre, Pastoral Familiar, Sínodo da Amazônia, Doutrina Social da Igreja, mudança de época, etc. Saímos de lá edificados.

 

No relato de At 12,1-11 Pedro está na prisão esperando ser entregue ao povo para ter, talvez, o mesmo fim do mestre. Mas toda a Igreja orava por ele. É esta também a coisa a ser feita agora. Devemos rezar. Rezar, antes de tudo, para que Deus faça de nós cristãos verdadeiramente apostólicos, solidamente ancorados à fé dos apóstolos Pedro e Paulo. Rezar também pelo sucessor de Pedro, para que ele que o colocou em tal posição o ilumine e o torne capaz de “confirmar os irmãos”.

Dom Geremias Steinmetz
Arcebispo de Londrina

 

 

Túmulo do apóstolo Pedro, no subsolo da Basílica de São Pedro, no Vaticano (Foto Karina de Carvalho / CNBB Sul 2)

 

 

Em frente à Basílica de São Paulo Fora dos Muros, estátua do apóstolo com a espada, símbolo do seu martírio (Karina de Carvalho / CNBB Sul 2)