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A Esperança Cristã – entre a Fé e a Caridade, por Dom Geremias Steinmetz

Nestes tempos difíceis que estamos vivendo, convém uma palavra sobre a Esperança. Ela está estreitamente ligada à fé e à caridade. É uma virtude teologal, visto que tem em Deus a sua origem e a sua meta. É, também, uma atitude profundamente humana, uma dimensão antropológica fundamental, pois em cada ser humano há uma essencial confiança na vida, uma espera de seguir vivendo e o desejo de viver melhor.

 

Na Sagrada Escritura, especialmente o Novo Testamento, a esperança se refere à história de Abraão para indicar que a nova aliança é o cumprimento pleno da religião de Israel (Rm 4,7-18; Hb 11,8-19). A categoria central das expectativas e esperanças no tempo de Jesus era a do Reino de Deus. No anúncio feito por Jesus aparece um paradoxo da esperança neotestamentária: o Reino é, de uma só vez, boa notícia já realizada e promessa aberta a um futuro melhor. Em Jesus, o Reino se faz presente já (Lc 11,20; Mt 12,28); dizem os textos que preciso pedi-lo (Mt 6,10) porque ainda não chegou em plenitude. A ressurreição de Cristo não anula a esperança mas lhe confere um novo vigor e a plenifica.

 

Ainda a esperança de Jesus sobressai de textos que dizem respeito aos dois momentos decisivos de sua vida. As parábolas do Reino (Mc 4; Mt 13) fazem entrever que a vinda deste Reino se deu no meio de inúmeras vicissitudes (a semente), mas que, por modestos que tenham sido seus começos, esta vinda tende inelutavelmente para seu fim (o grão de mostarda), um fim certo pois é obra de Deus (o grão que cresce sozinho).

 

O Apocalipse é o livro da esperança cristã. Encontra-se no meio de uma situação dramática para a qual contribuem diversas dificuldades externas, como a hostilidade das autoridades públicas que chegam a culminar na perseguição, e dificuldades internas, como a negação da fé de alguns irmãos, os cristãos da Ásia são convidados a contemplar o triunfo do Cordeiro imolado e ressuscitado, celebrado no céu (Ap 5,11-14). Viver na esperança quer dizer suportar a perseguição das potências do mal (6,10-11), na expectativa da felicidade perfeita dos novos céus e da nova terra (Ap 21-22).

 

No Antigo e no Novo Testamento a esperança vive da memória da intervenção libertadora de Deus para tirar Israel da escravidão do Egito (Dt 6,12; 8,11); e memória da Cruz e Ressurreição de Cristo (2Tm 2,8). A teologia contemporânea destaca que a memória da cruz e ressurreição é uma “recordação perigosa” que desperta uma esperança transformadora do presente. J.B. Metz assim expressa: “A memória de Jesus Cristo implica uma determinada antecipação do futuro, como futuro dos que não tem esperança, dos fracassados e injustiçados. É pois uma memória perigosa e libertadora que questiona o nosso presente, porque que não nos traz um futuro aberto qualquer, mas, precisamente este futuro concreto, e porque obriga os crentes a transformar-se constantemente, para dar a razão deste futuro”.

 

A esperança não elimina as tarefas do dia a dia, mas proporciona novos motivos de apoio para cumprir estas tarefas (GS 21). Esta esperança transformadora do mundo presente e essa “recordação perigosa” que nutre a esperança se apoiam, iluminam e reforçam mutuamente. No meio de todos os problemas que vivemos, continuemos cumprindo bem a nossa missão. Fé, Esperança e Caridade caminham juntas. Na vida de fé temos que alimentar as três virtudes teologais, fé, esperança e caridade, pois todas são centrais para o seu equilíbrio.

 

Dom Geremias Steinmetz
Arcebispo Metropolitana de Londrina

Foto: Pixabay

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