Papa Francisco

Carta Apostólica: Maximum Illud

CARTA APOSTÓLICA
MAXIMUM ILLUD
DO SUMO PONTÍFICE
BENTO XV
AOS PATRIARCAS, PRIMAZES,

ARCEBISPOS E BISPOS
DO MUNDO CATÓLICO
SOBRE A ATIVIDADE DESENVOLVIDA
PELOS MISSIONÁRIOS NO MUNDO

 

Venerados Irmãos,
saúde e Bênção Apostólica!

A grande e sublime missão que Nosso Senhor Jesus Cristo, quando estava para regressar ao Pai, confiou aos seus discípulos ao dizer-lhes “ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura”(1), não podia terminar com a morte dos Apóstolos mas devia continuar, através dos seus sucessores, até ao fim dos tempos, isto é, enquanto existirem na terra pessoas para salvar pelo ensino da verdade. Na realidade, desde aquele dia, “eles, partindo, foram pregar por toda a parte”(2), de modo que o eco da sua voz “ressoou por toda a terra, e a sua palavra, até aos confins do mundo”(3). A Igreja de Deus, fiel ao mandato divino, nunca deixou, através dos tempos, de enviar a todo o mundo arautos e ministros da palavra divina que anunciassem a salvação eterna alcançada por Cristo para o género humano. Mesmo durante os três primeiros séculos do cristianismo, quando a fúria das perseguições, desencadeadas pelo inimigo, inundava de sangue a Igreja nascente, a voz do Evangelho foi proclamada em todo o Império Romano. Quando posteriormente foi concedida a paz e a liberdade à Igreja, foram ainda maiores os progressos no apostolado alcançados em todo o mundo, sobretudo pela mão de pessoas que se distinguiam por zelo e santidade. Nessa época, Gregório, o Iluminador, trouxe a Arménia à fé cristã; Vitorino, a Estíria; Frumêncio, a Etiópia; Patrício converteu os irlandeses ao cristianismo; Agostinho converteu os ingleses; Colomba e Palladio, os escoceses; Clemente Willibrord (primeiro Bispo de Utrecht) evangelizou a Holanda; Bonifácio e Anscário, a Alemanha; Cirilo e Metódio, os eslavos. Alargando o horizonte, Guilherme de Rubruquis levou o Evangelho à Mongólia, o Beato Gregório X enviou missionários para a China e os franciscanos estabeleceram lá um cristianismo jovem, que em seguida foi arrasado pela tempestade da perseguição.

 

Depois da descoberta da América, uma multidão de apóstolos – entre os quais recordamos principalmente Bartolomeu de Las Casas, distinto dominicano – consagrou-se à proteção dos indígenas contra a tirania humana, com a finalidade de os libertar da dura escravidão do demónio. Na mesma época S. Francisco Xavier, digno de ser comparado aos Apóstolos, depois de tantos trabalhos na Índia e no Japão, morreu às portas do Império Chinês (onde desejava chegar) como que abrindo com a sua morte o caminho para uma nova evangelização daquelas regiões, onde em seguida tantas Ordens religiosas e Institutos missionários exerceriam o apostolado no meio de grandes dificuldades.

 

Por fim a Austrália, o último continente a ser descoberto, e ao mesmo tempo os territórios da África central receberam anunciadores da fé cristã; e no imenso Oceano Pacífico todas as ilhas, mesmo as mais isoladas, foram alcançadas pelo zelo dos nossos Missionários. Alguns deles, desejando a salvação dos irmãos, a exemplo dos Apóstolos, alcançaram o máximo da perfeição. Muitos outros coroaram o seu apostolado com o martírio, tendo selado a sua fé com o sangue.

 

Na verdade, é motivo de grande preocupação constatar como, depois de tantos sofrimentos associados ao anúncio da fé, depois de tantos trabalhos e exemplos de fortaleza, sejam ainda tantos os que permanecem nas trevas e nas sombras da morte: segundo as mais recentes estatísticas, somariam um milhar de milhão.

 

Neste sentido, querendo por compaixão e dever apostólico fazê-los participantes da redenção divina, vemos com grande alegria e consolação que, sob a orientação do Espírito de Deus, cada dia aumenta mais, em várias partes da cristandade, o zelo dos bons na promoção e desenvolvimento das Missões no meio dos povos. Para confirmar este movimento e dar-lhe um vigoroso impulso em todo o mundo, como devemos e desejamos, nós, depois de termos implorado insistentemente a luz e a ajuda do Senhor, enviamo-vos, venerados Irmãos, esta carta para que vos entusiasme a vós, ao vosso clero e aos povos que vos estão confiados e vos indique de que modo podeis contribuir para esta santa causa.

 

Antes de mais dirigimo-nos àqueles que, na qualidade de Bispos, Vigários ou Prefeitos Apostólicos, presidem às Missões. Deles depende diretamente a propagação da fé e é neles que a Igreja coloca a esperança para uma maior expansão. Não ignoramos quão vivo esteja neles o espírito de apostolado. São conhecidas as grandes dificuldades que tiveram de superar e as árduas provações que sofreram, sobretudo nos últimos anos, não só para não perder as posições adquiridas mas também para dilatar ainda mais o reino de Deus. Conhecendo a sua adesão e filial união com esta Sé Apostólica, abrimos-lhes o coração com plena confiança, como faria um pai com os seus filhos. Pensem primeiramente que eles, como se diz, devem ser a alma da sua Missão. Por essa razão, sejam zelosos e de exemplar edificação para os seus sacerdotes e cooperadores, exortando-os e encorajando-os a um bem sempre maior. Quantos de qualquer modo trabalham nesta vinha do Senhor devem perceber, experimentar e até sentir que encontram no superior um verdadeiro pai, vigilante, diligente, repleto de solicitude e caridade, que tudo e todos abraça afetuosamente, compartilhando as alegrias e aflições, confirmando e promovendo todas as boas iniciativas e, numa palavra, assumindo como próprio tudo o que lhes diz respeito. O destino de uma Missão depende, pode dizer-se, do modo como é dirigida; por isso, pode ser danosa a não idoneidade de quem a governa. Na verdade, quem se consagra ao apostolado das Missões, abandona pátria, família e parentes; aventura-se frequentemente numa viagem grande e perigosa, disposto a suportar qualquer sofrimento a fim de ganhar mais pessoas para Cristo. Por isso, se tem um superior que o assiste nas várias circunstâncias com sincera caridade, não há dúvida que a obra será frutuosa; caso contrário, abatido pouco as pouco pelas contrariedades, provavelmente terminará abandonando-se ao desânimo e à inércia.

 

Além disso, quem preside a uma Missão deve procurar dar-lhe o máximo incentivo e desenvolvimento. Tendo-lhe sido confiado todo o território da sua Missão, é claro que deverá responder pela salvação de todos os habitantes daquela região. Por essa razão não se deve contentar em ter conquistado para a fé, entre aquela multidão, alguns milhares de pessoas: procure cultivar e manter aqueles que ofereceu a Jesus Cristo, de maneira que ninguém regresse ao caminho da perdição. Não julgue ter conseguido completar o seu dever, se antes não tiver colocado todas as suas forças na cristianização também dos restantes que não conhecem Cristo, que é a missão maior. Por isso, para facilitar sempre mais a pregação do Evangelho, será de grande ajuda a criação de novos centros e novas comunidades cristãs que, por sua vez, darão lugar a novos Vicariatos e Prefeituras, quando se julgar oportuno subdividir aquela Missão. A este propósito, elogiamos os Vicariatos Apostólicos que, assim fazendo, contribuem para o desenvolvimento do Reino de Deus e que, não encontrando novos cooperadores na sua própria Ordem, de bom grado acolhem outros de distintas famílias religiosas.

 

Pelo contrário, seria reprovável se aquele a quem foi confiada uma parte da vinha do Senhor, a considerasse como propriedade exclusiva, com inveja que outros a toquem. Que grande responsabilidade assumiria diante do eterno Juiz, sobretudo se a sua pequena comunidade cristã – como acontece frequentemente – estiver quase perdida no meio de uma multidão não-cristã e desprovida de efetivos suficientes para a catequização, se se obstinasse a não pedir ajuda a outros colaboradores! Assim, se houver necessidade, o superior da Missão (que deve ser solícito apenas pela glória de Deus e a salvação das almas) chame cooperadores de qualquer lado que o ajudem no seu ministério, sem se importar com a Ordem ou a nacionalidade, “desde que, de qualquer modo (…), Cristo seja anunciado”(4); chame não somente cooperadores mas também cooperadoras para as escolas, orfanatos, lares, hospitais, convicto que todas estas obras de caridade são um meio muito eficaz nas mãos da Providência divina para a propagação da fé.

 

Além disso, o superior da Missão não restrinja a sua ação ao seu território, desinteressando-se do que acontece fora; quando o exigir o amor de Cristo e a Sua glória – a única coisa que verdadeiramente interessa –, procure estar em relação com os colegas vizinhos, até porque muitas vezes há interesses comuns a uma região, que não poderão ser bem servidos senão de comum acordo. É muito vantajoso para a religião que os responsáveis das Missões, podendo, tenham periodicamente reuniões para se aconselhar e encorajar mutuamente. Por fim, quem preside à Missão deve investir o melhor das suas forças numa boa formação do clero indígena, sobre quem repousam as maiores esperanças das novas comunidades cristãs. O sacerdote indígena, possuindo em comum com os seus concidadãos a origem, a índole, a mentalidade e as aspirações, está superiormente preparado para fomentar a fé nos seus corações, já que mais do que ninguém conhece os caminhos certos para os persuadir. Acontece frequentemente que ele chegue com maior facilidade aonde o missionário estrangeiro não consegue.

 

No sentido de conseguir os frutos esperados, é absolutamente necessário que o clero indígena seja convenientemente instruído e formado. Não basta uma formação rudimentar suficiente para poder ser admitido ao sacerdócio, mas deve ser completa e perfeita, como a que se costuma dar aos sacerdotes das nações mais desenvolvidas. Em suma, não se deve formar um clero indígena como se fosse de classe inferior, usado para as tarefas secundárias, mas com um nível tal que, encontrando-se à altura do seu ministério, possa um dia assumir o governo da comunidade cristã. Na verdade, sendo a Igreja universal e, por conseguinte, de forma alguma alheia a qualquer povo, é conveniente que, em cada nação, existam sacerdotes capazes de apontar aos seus concidadãos, como mestres e guias, o caminho da salvação eterna. Onde houver uma quantidade suficiente de clero indígena bem formado e digno da sua vocação, aí a Igreja poderá assumir-se como bem fundada e considerar completa a obra do Missionário. E, se essa Igreja tivesse de suportar futuramente a perseguição, não haveria que temer pois, com aquela base e aquelas raízes, não sucumbiria aos assaltos do inimigo.

 

Na verdade, a Sé Apostólica insistiu sempre para que esta tarefa fundamental fosse bem entendida pelos superiores da Missão e levada a cabo com todo o empenho: são prova disso os antigos e novos colégios fundados nesta cidade de Roma para a formação dos clérigos de nações estrangeiras, sobretudo os de rito oriental. Apesar disso, ainda existem – infelizmente – regiões onde, apesar da fé católica ter penetrado há séculos, somente se encontra um clero indígena decadente. Do mesmo modo, há muitos povos que, apesar de terem atingido um alto grau de civilização a ponto de contar com pessoas admiráveis nos vários ramos da indústria e da ciência, ainda não têm Bispos próprios que os governem, nem sacerdotes tão influentes que sejam capazes de guiar os seus concidadãos e, no entanto, há séculos que estão sob a influência do Evangelho e da Igreja. Isto demonstra que na educação do clero destinado às Missões se continua a usar métodos vulneráveis e deficientes. Para prevenir tal inconveniente, queremos que a Sagrada Congregação Propaganda Fide tome as medidas e disposições adaptadas às várias regiões; interesse-se pela fundação e bom andamento dos Seminários quer regionais quer interdiocesanos; e vele de modo particular pela formação do clero em cada um dos Vicariatos e nas várias Missões.

 

Agora dirigimo-nos a vós, queridos filhos que cultivais a vinha do Senhor e de quem depende mais diretamente a propagação da verdade cristã e a salvação de tantas pessoas. Antes de mais nada, é necessário que tenhais uma grande estima pela vossa sublime vocação. Tende em conta que a tarefa que vos está confiada é absolutamente divina e está acima dos pequenos interesses humanos, porque levais a luz a quem jaz nas sombras da morte e abris as portas do céu a quem estava a caminhar para o abismo. Considerando que foi dito a cada um de vós pelo Senhor “esquece o teu povo e a casa do teu pai” (5), recordai-vos que não deveis difundir o reino dos homens, mas o de Cristo; não vos compete aumentar o numero de cidadãos para a pátria terrena, mas para a pátria celeste. Disto se conclui que seria deplorável se houvesse Missionários que, esquecidos da própria dignidade, pensassem mais na sua pátria terrena que na celeste; e estivessem preocupados, acima de tudo, com a dilatação do poder e da glória daquela. Esta seria uma das mais tristes chagas do apostolado, que paralisaria o zelo do Missionário e diminuiria a sua autoridade aos olhos dos indígenas. Na verdade, embora rudes, estes compreendem suficientemente aquilo que o Missionário quer e pretende deles; conhecem – dir-se-ia por intuição – se tem outras intenções além do maior bem espiritual deles. Suponhamos que ele não se comporta plenamente como um verdadeiro homem apostólico, não pondo de lado essas intenções humanas, mas dê a entender que serve os interesses da sua pátria, obviamente todo o seu trabalho será olhado com suspeita pela população; esta facilmente será induzida a crer que a religião cristã não passa da religião de um determinado país e que a adesão a ela seria colocar-se na dependência de um Estado estrangeiro, renunciando assim à sua nacionalidade.

 

Infelizmente em certas revistas de Missões, surgidas ultimamente, mais do que o zelo pelo reino de Deus aparece evidenciado o desejo de alargar a influência da própria pátria. Surpreende como delas não transpareça qualquer preocupação pelo grave perigo de afastar os pagãos da nossa religião. Não procede assim o missionário católico, digno deste nome. Sem nunca esquecer que não é um emissário da sua pátria, mas de Cristo, comporta-se de tal modo que cada um pode reconhecer indubitavelmente nele um ministro daquela religião que, abraçando todas as pessoas que adoram Deus em espírito e verdade, não é estrangeira a nenhuma nação e nela “não há grego nem judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro, cita, escravo, livre, mas Cristo que é tudo e está em todos”(6).

 

Outro grande problema, a que o Missionário deve obviar, é o de procurar outros ganhos que não sejam ganhar almas. Quanto a este assunto, não vale a pena gastar muitas palavras. Como poderia, quem é ávido de dinheiro, procurar única e convenientemente a glória de Deus – como deve – e, para a promover salvando o seu próximo, estar pronto a sacrificar tudo o que tem, incluindo a própria vida? Acrescente-se que ele, dessa maneira, viria a perder muito da sua autoridade e prestígio junto dos infiéis, sobretudo se esta obsessão pelo lucro, como facilmente acontece, degenera em avareza. Não há nada mais desprezível à vista dos homens e inconveniente para o reino de Deus do que este sórdido vício. Fugindo disso, o bom pregador do Evangelho imite, nisto também, o Apóstolo dos gentios, que não se limitou a dizer a Timóteo, “tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isso”(7), mas levou o desapego até ao ponto de, mesmo no meio das inúmeras atividades do seu ministério, ganhar o alimento com o trabalho das suas mãos.

 

Daí que, antes de iniciar o seu apostolado, o Missionário deve ter uma cuidadosa preparação. Poder-se-ia pensar que não há necessidade de tanta ciência para quem vai pregar Cristo a povos não civilizados. Embora seja verdade que, para converter e salvar as pessoas, é muito mais eficaz a virtude do que o saber, todavia se o missionário não se muniu primeiro duma certa bagagem de doutrina, dar-se-á conta depois que lhe falta consistência para ser bem sucedido no seu ministério. É frequente o Missionário encontrar-se sem livros e sem a possibilidade de consultar qualquer pessoa mais experiente, quando precisa de responder a objeções contra a fé e resolver questões e problemas difíceis. Quanto mais instruído for, maior será a estima de que gozará entre o povo; sobretudo se se encontrar no meio de um povo que aprecia o estudo e o saber, não seria conveniente que os pregadores da verdade fossem inferiores aos ministros do erro. Por isso, enquanto os seminaristas – chamados por Deus – são preparados convenientemente para as Missões, devem ser instruídos em todas as disciplinas (sagradas ou profanas) que interessem ao Missionário. E isto deve ser feito com todo o cuidado nas sedes académicas do Colégio Pontifício Propaganda Fide; ordenamos também que, a partir de agora, seja disponibilizado lá um ensinamento especial sobre todos os assuntos atinentes às Missões.

 

A primeira coisa que o missionário deve conhecer é a língua do povo, a que se destina. Não basta ter qualquer conhecimento, mas é necessário que a saiba falar correta e fluentemente. Na verdade, é enviado a toda a espécie de pessoas, tanto letradas como não letradas. Naturalmente é mais fácil, a alguém que fale bem a língua do povo, conseguir a estima de todos. Quanto à explicação da doutrina cristã, o Missionário diligente não a deve confiar aos catequistas, mas reserve-a para si mesmo como seu trabalho próprio, como a sua principal obrigação, sabendo que a pregação do Evangelho é a única finalidade para a qual foi enviado por Deus. Às vezes pode acontecer que ele, como ministro e representante da religião, deva comparecer diante das autoridades do país ou seja convidado para qualquer reunião de sábios, como poderia sustentar o seu nível se, por ignorância da língua, não soubesse exprimir os seus pensamentos?

 

Nesta linha, para desenvolver a Igreja no Oriente, fundamos aqui, em Roma, um Instituto especial destinado a quantos farão apostolado naquelas regiões a fim de serem bem instruídos em todos os assuntos, mas especialmente no conhecimento das línguas e dos costumes do Oriente. Achando que este Instituto é de grande utilidade, aproveitamos esta ocasião para exortar todos os Superiores das Ordens e das Famílias religiosas, às quais estão confiadas Missões no Oriente, a mandarem para aqui os seus alunos destinados a tais Missões, a fim de adquirirem uma cultura sólida.

 

Para aqueles que se preparam para o apostolado, é indispensável acima de tudo – como dissemos – a santidade de vida. É necessário que seja um homem de Deus aquele que prega Deus; e odeie o pecado aquele tal ódio ensina. Especialmente junto dos pagãos, que são guiados mais pelo instinto que pela razão, é muito mais proveitosa a pregação do exemplo que a da palavra. Ainda que o Missionário seja dotado dos melhores dotes de mente e coração, mesmo que seja cheio de doutrina e cultura, se estas qualidades não aparecerem associadas a uma vida santa, bem pouca ou mesmo nenhuma eficácia terão para a salvação dos povos; antes, na maior parte dos casos, causarão dano ao próprio e aos outros.

 

Por isso, o Missionário seja exemplarmente humilde, obediente e casto; seja especialmente piedoso, dedicado à oração e viva em contínua união com Deus, intercedendo junto d’Ele pela causa das almas. Quanto mais unido estiver a Deus, tanto mais abundantemente lhe será concedida a graça do Senhor. Escute a exortação do Apóstolo: “como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos, pois, de sentimentos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência” (8). Afastados todos os obstáculos com a ajuda destas virtudes, é fácil e espontâneo o acesso da verdade aos corações dos homens; não existe vontade tão obstinada que lhe possa resistir. Por isso, o Missionário que, à imitação do Senhor Jesus, arda de caridade, reconhecendo como filhos de Deus também os mais afastados, redimidos pelo mesmo sangue, não se irrita pela sua rudeza, não desanima perante a perversidade dos seus costumes, não os despreza nem desdenha, não os trata com aspereza, mas procura atraí-los com toda a ternura da bondade cristã, para conduzi-los um dia ao abraço de Cristo, o Bom Pastor. Neste sentido, medite habitualmente esta passagem da Sagrada Escritura: “O teu espírito incorruptível está em todas as coisas! Por isso, pouco a pouco corriges os que caem, os repreendes e lhes recordas o seu pecado, para que se afastem do mal e creiam em ti, Senhor. (…) Mas Tu, que dominas a tua força, julgas com bondade e nos governas com grande indulgência, pois podes usar o teu poder quando quiseres” (9). Que adversidade, angústia ou perigosa contingência poderá desencorajar um tal mensageiro de Jesus Cristo? Nenhuma. Reconhecido para com Deus que o chamou para uma missão tão sublime, está disposto a tudo, a tolerar generosamente as dificuldades, os insultos, a fome, as privações, até a morte mais cruel, para resgatar uma só alma.

 

Com estas convicções e propósitos e seguindo o exemplo de Cristo e dos Apóstolos, o Missionário prepara-se confiadamente para exercer o seu mandato: mas recorde-se de colocar toda a sua confiança em Deus. Como dissemos, a propagação da sabedoria cristã é, toda ela, uma intervenção divina, porque só Deus sabe entrar no íntimo de cada um, iluminar as mentes com o esplendor da verdade, acender nos corações a chama da virtude e fornecer ao homem as energias necessárias para que possa abraçar e seguir aquilo que ele reconheceu como verdadeiro e bom. Se o Senhor não ajudar o Ministro nas suas fadigas, todo o seu esforço será vão. Apesar de tudo isto, continue animadamente no seu trabalho, confiando na ajuda da graça divina, que nunca é negada a quem a invoca.

 

Não podemos deixar também de mencionar as mulheres que, desde os primórdios do cristianismo, colaboraram eficazmente com os pregadores na difusão do Evangelho. Especialmente dignas de louvor são as virgens consagradas a Deus, que se encontram em grande número nas Missões, dedicadas à educação das crianças ou a outras obras de piedade e de beneficência: queremos que elas encontrem neste louvor um novo encorajamento para aumentarem sempre mais o seu contributo a bem da Igreja, certas de que a sua obra será tanto mais vantajosa quanto mais se empenharem na própria perfeição espiritual.

 

Agora dirigimo-nos a todos aqueles que, por grande misericórdia de Deus, estão já na posse da verdadeira fé e dela colhem imensos benefícios. Antes de mais nada, devem ter em consideração a obrigação que lhes incumbe de ajudar as Missões. Na verdade, Deus “impôs a cada um deveres para com o próximo”(10), e este dever é tanto mais impelente quanto maior for a necessidade em que vive o próximo. Ora quem terá mais necessidade da nossa ajuda fraterna do que aquele que desconhece Deus, estando à mercê das mais desenfreadas paixões e sob a duríssima tirania do demónio? Por isso, todos aqueles que contribuem – segundo as próprias forças – para os iluminar, sobretudo ajudando a obra dos Missionários, prestam a Deus o testemunho mais agradável da sua gratidão por lhes ter dado o dom da fé.

 

As ajudas que se podem dar às Missões e que os Missionários não cessam de pedir, são de três espécies. A primeira, que está ao alcance de todos, é confiá-los ao Senhor através da oração. Já mais de uma vez observamos que a obra dos Missionários será estéril e vã, se não for fecundada pela graça divina; como dizia São Paulo, falando de si mesmo: “eu plantei, Apolo regou, mas foi Deus quem deu o crescimento” (11). Para conseguir esta graça, só há um modo: a perseverança na oração humilde. Como disse o Senhor, “se pedir qualquer coisa, hão de obtê-la de meu Pai”(12). Não restam dúvidas sobre o facto de uma tal oração ser atendida, tratando-se duma causa tão nobre e querida aos olhos de Deus. Por isso, assim como Moisés no alto do monte, levantando as mãos ao céu, suplicava a ajuda divina a favor dos israelitas que combatiam contra os amalecitas, assim também os cristãos devem, rezando, ajudar os pregadores do Evangelho, enquanto estes trabalham na vinha do Senhor. Com esta finalidade, foi instituído o “Apostolado da Oração”; recomendamo-lo vivamente a todos os fiéis, esperando que ninguém se recuse a fazer parte dele, mas todos queiram tomar parte, no mínimo com o coração, nas canseiras apostólicas.

 

Em segundo lugar, é necessário prover à escassez de missionários, que já se fazia sentir anteriormente, mas a sua necessidade é ainda maior depois da guerra. Várias partes da vinha do Senhor precisam de trabalhadores. Apelamos à vossa solicitude, venerados Irmãos, certo de que fareis o necessário para estimular no clero e nos alunos do Seminário diocesano a vocação para as Missões. Não vos deixeis enganar por alguma aparência de bem ou por considerações humanas, temendo que faça falta na vossa diocese o que derdes às Missões. No lugar de um Missionário que deixareis partir, Deus suscitará mais sacerdotes que serão muito úteis à vossa diocese. Exortamos também os Superiores das Ordens e Institutos religiosos que se dedicam às Missões, para que lhes destinem os melhores alunos, isto é, aqueles que pela santidade de vida, espírito de sacrifício e zelo pelas almas se mostrem verdadeiramente idóneos para o árduo ministério do apostolado. E quando os Superiores tiverem conhecimento que os seus Missionários conseguiram felizmente trazer alguma população das superstições para a sabedoria cristã e aí tiverem fundado uma Igreja suficientemente estável, permitam que tais veteranos de Cristo se transfiram para ir resgatar outro povo das mãos do diabo, deixando a outros – sem lamentações – a tarefa de fazer crescer e melhorar o que eles próprios entregaram a Cristo. Assim, ao mesmo tempo que contribuem para beneficiar uma grande quantidade de pessoas, atrairão também sobre a sua Família religiosa os mais altos dons da bondade divina.

 

Para sustentar as Missões, são necessários também muitos meios materiais, especialmente porque cresceram imenso as necessidades depois da guerra que devastou e destruiu escolas, lares, hospitais, dispensários e outras instituições de caridade. Apelamos veementemente a todas as pessoas de boa vontade para que, nos limites das suas possibilidades, queiram largamente ajudar. De facto, “se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, lhe fechar o seu coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele?” (13). Assim falava o Apóstolo João a propósito daqueles que passam necessidades materiais. Quanto mais se deve observar a lei da caridade neste caso, tratando-se não só de socorrer uma infinita quantidade de gente que enfrenta a miséria e a fome, mas também e principalmente de resgatar uma multidão imensa da escravidão de satanás para a liberdade dos filhos de Deus? Desejamos que, de modo particular, sejam ajudadas – pela generosidade dos católicos – as obras que foram propositadamente instituídas em benefício das Missões. Em primeiro lugar, a “Obra da Propagação da Fé”, tantas vezes recomendada pelos nossos predecessores. Queremos que a Sagrada Congregação Propaganda Fide tenha particular cuidado por ela, para que se torne cada vez mais fecunda. A sua finalidade principal é dotar dos melhores meios a manutenção das Missões já criadas e as outras que se deverão criar. Confiamos que os católicos do mundo inteiro não permitirão que, enquanto outros dispõem de poderosos meios para espalhar o erro, os nossos – para difundir a verdade – tenham que lutar com a indigência. Em segundo lugar, recomendamos vivamente a “Obra da Santa Infância” que se propõe administrar o Batismo às crianças moribundas das Missões. Nesta obra, podem participar também as nossas crianças, que podem assim conhecer o quanto é inestimável o dom da fé e aprender a prestar o seu contributo juntamente com outros. Não seja também esquecida a “Obra de São Pedro” que tem por finalidade a boa formação do clero indígena das Missões. Queremos também que seja diligentemente observado aquilo que foi prescrito pelo nosso antecessor Leão XIII: no dia da Epifania, recolha-se em todas as igrejas do Mundo o óbolo “para o resgate dos escravos da África” e que a soma recolhida seja entregue à Sagrada Congregação Propaganda Fide.

 

A fim de que os nossos votos tenham cabal cumprimento, é necessário que vós, venerados Irmãos, instruais de modo muito particular o vosso clero a propósito das Missões. Geralmente os fiéis estão abertos e prontos a socorrer a obra do apostolado; não deixeis que se percam estas boas disposições, antes procurai tirar delas o maior proveito para as Missões. Com este objetivo, é nosso desejo que seja instituída em todas as dioceses católicas a associação chamada “União Missionária do Clero”. Queremos que a mesma fique dependente da Sagrada Congregação Propaganda Fide, à qual já demos todas as faculdades necessárias. Fundada em Itália, esta associação difundiu-se rapidamente por várias regiões. E, como goza do nosso inteiro favor, já a dotamos de muitas indulgências. Através dela, a ação do clero será sabiamente organizada quer em ordem a interessar os fiéis pela conversão de tantos pagãos quer no desenvolvimento e difusão de todas as Obras já aprovadas pela Sé Apostólica em benefício das Missões.

 

Eis, venerados Irmãos, o que vos queríamos comunicar relativamente à propagação da fé em todo o mundo. Se, como estamos certos, todos quererão cumprir o seu dever – os Missionários no campo de trabalho e os fiéis na pátria – podemos esperar que as Missões, restabelecidas dos graves danos da guerra, voltarão a prosperar. Neste ponto, sentindo que o divino Mestre nos exorta, como um dia a Pedro, com as palavras “faz-te ao largo”(14), um grande ardor de caridade paterna nos impele a conduzir toda a humanidade ao abraço d’Ele. Com efeito, permanece vivo e poderoso o Espírito de Deus na Igreja e não pode ser estéril o zelo de tantos apóstolos que trabalharam, e trabalham ainda, para dilatar os confins da Igreja. Estimulados pelo seu exemplo, robustecer-se-ão as fileiras de missionários que, sustentados pelas orações e a generosidade das pessoas boas, conquistarão muitos outros para Cristo.

 

Que a Mãe de Deus, Rainha dos Apóstolos nos acompanhe e obtenha o Espírito Santo para os anunciadores do Evangelho. Com a Sua proteção e como penhor de paterna benevolência, concedemos a vós, venerados Irmãos, ao vosso clero e ao vosso povo a Bênção Apostólica.

 

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 30 de novembro de 1919, sexto ano do nosso Pontificado.

Benedictus PP. XV

NOTAS

1. Mc 16, 15.

2. Mc 16, 20.

3. Sal 18, 5.

4. Flp 1, 18.

5. Sal 44, 11.

6. Col 3, 11.

7. 1 Tm 6, 8.

8. Col 3, 12.

9. Sab 12, 1. 2.18.

10. Sir17, 14.

11. 1 Cor 3, 6.

12. Mt 18, 19.

13. 1 Jo 3, 17.

14. Lc 5, 4.

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