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Entrevista: uma Igreja em saída

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Em Londrina na semana passada, Padre Jaime Patias, secretário nacional da Pontifícia União Missionária, fala sobre a importância de se fortalecer o espírito missionário nos seminaristas

A Arquidiocese de Londrina sediou, na semana passada, o I Congresso Missionário de Seminaristas do Paraná, com a presença do padre Jaime Patias, secretário nacional da Pontifícia União Missionária, uma das obras da POM, Pontifícias Obras Missionárias. Em entrevista à PASCOM, ele fala sobre a ação missionária, o congresso e o trabalho da POM.

Padre Jaime, o senhor trabalha na obra pontifícia dedicada à formação do clero. Qual a importância de se fortalecer nos seminaristas e nos padres a visão missionária?

Pe. Jaime: A Pontifícia União Missionária, a qual eu faço parte, tem a função de formar missionariamente o clero. O fundador dessa obra, o padre Paulo Manna, dizia que a falta de missionariedade da Igreja era devida à ignorância dos presbíteros quanto à missão. Então precisaria trabalhar essa dimensão para que eles se tornassem formadores do povo de Deus e recuperassem a verdadeira identidade da Igreja. Veja a clareza dele. Porque a missão é de Deus, junto a qual somos convidados a cooperar, por isso a Igreja é missionária por essência, por natureza. Veja bem, a missão é de Deus e Ele tem uma Igreja para chegar a todos. A igreja deriva da própria essência de Deus. A missão é da essência de Deus e a igreja é um sinal, um sacramento universal de salvação e é através da Igreja que Deus chega a todos. Então é através de nós, padres, dos leigos e leigas, da vida religiosa e consagrada, dos diversos ministérios dentro da igreja, dos diáconos consagrados também que Deus chega e deve chegar a todos. Por isso que eu sou, você é missão de Deus no mundo.

Você perguntou também qual é a importância desse trabalho com os seminaristas. O seminarista, que é o futuro presbítero tem uma missão chave dentro da dinâmica da Igreja em saída, em estado permanente de missão, não pode ficar de fora dessa dinâmica. E muitas vezes ele fica de fora.  Do jeito que a Igreja está organizada, os padres são os ministros principais, lideranças-chave para conduzir as paróquias, que conduzem a diocese e, infelizmente ou felizmente, muita coisa depende deles. Se esses padres forem abertos à missão, eles também vão animar o povo de Deus, os paroquianos, o povo que eles têm nas mãos para que a Igreja local também assuma essa missão na sua dimensão pública e universal.

Os seminaristas são peças-chave, porque amanhã eles têm as paróquias, e eles têm que levar a paróquia, a diocese aos três âmbitos da missão: o cuidado pastoral; a nova evangelização dos que se afastaram, dos que estão distantes, e também os que não crêem em Deus ali na sua diocese; e não podem esquecer do terceiro âmbito que é a missão além fronteiras, aos povos, ad gentes, que é isso que vai dar o sentido de igreja na sua natureza, na sua essência, toda ela missionária.

E qual o papel deste I Congresso Missionário de Seminaristas do Paraná?

Pe. Jaime: Este foi o primeiro encontro regional desta natureza. Outras regionais já têm uma caminhada de nove até dez encontros. Eu vejo isso como um momento muito importante, histórico para o regional, porque a partir desse encontro nós vamos colocar a necessidade de organizar os conselhos missionários de seminaristas nas dioceses, nos seminários, e a partir disso uma articulação regional, com uma comissão que vai coordenar, então teremos aqui um coordenador do Conselho Missionário de Seminaristas (COMISE) do Regional Sul II, que vai depois participar de encontros nacionais em Brasília. Com isso, a gente caminha com a reflexão que a CNBB e toda a Igreja no mundo está fazendo, puxada e animada pelo papa Francisco, através da Evangelii Gaudium, a CNBB, através dos documentos do Celam (Conselho Episcopal Latino-americano), o documento de Aparecida e as diretrizes da Ação Evangelizadora.

Muitas vezes as pessoas até escutam falar sobre Pontifícias Obras Missionárias, mas não sabem muito bem o que é. O senhor poderia nos explicar brevemente?

Pe. Jaime: As Pontifícias Obras Missionárias são quatro obras do Pontífice, ou seja, do papa, voltadas para a missão: Pontifícia Obra da Propagação da Fé, Pontifícia Obra da Infância e Adolescência Missionária, Pontifícia Obra de São Pedro Apóstolo e Pontifícia União Missionária. São obras que têm como finalidade animar para que não fique para trás a dimensão do estado permanente de missão da Igreja, que seja cada vez mais visível. Nosso trabalho é de animar e formar o trabalho missionário nas comunidades. Podemos dizer três direções ou três maneiras. Temos materiais de formação, informação, o que leva as pessoas a rezarem pelos missionários e missionárias. Depois temos a campanha de coleta no Dia Mundial das Missões, que sempre é feita a partir de uma reflexão, para isso produzimos um DVD, um livrinho de novena, com um tema geralmente relacionado à Campanha da Fraternidade numa perspectiva mais ampla. E temos também o incentivo a vocações, para leigos e leigas, religiosos e religiosas, padres e diáconos, para eles partirem em missão. Mas quem envia é sempre a Igreja local, a diocese, ou os regionais. Então as Pontifícias Obras tem a função de apoiar projetos.

Assim, ela perpassa todas as idades. As crianças são educadas através da infância e adolescência missionária, os seminaristas são educados para a missão, porque os presbíteros precisam ser missionários, os jovens, nós temos a juventude missionária. Até as famílias, temos as famílias missionárias, idosos e enfermos também, porque oferecem as suas próprias limitações em prol da missão. Depois tem essa campanha missionária que é formação, informação e concretamente a partilha, a doação. Você tem que rezar, então você vai com o joelho no chão, mas não é o joelho que mais doi é o bolso que mais doi, então você tira alguma coisa para um gesto concreto, partilha com a missão.

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Toda missão da Igreja está ligada às Pontifícias Obras Missionárias?

Pe. Jaime: Não necessariamente. A Igreja é por natureza missionária, então a diocese tem também a sua dinâmica que entra na dinâmica do estado permanente de missão, a primeira urgência das diretrizes da CNBB.

Como as Pontifícias Obras Missionárias estão organizadas?

Pe. Jaime: Elas estão em mais de 100 países. Sempre tem um diretor nacional nomeado pelo papa por decreto. Essas pontifícias obras estão ligadas ao Vaticano através da Congregação para a Evangelização dos Povos, e todo trabalho de cooperação missionária e animação missionária passa por essa congregação.

Outros países aqui da América Latina têm também conselhos diocesanos. Aqui no Brasil, trabalhamos com Conselhos Missionários Diocesanos (COMIDE) Então emos um diretor nacional nomeado pra cinco anos, e compõem a equipe secretários de cada obra. Esses secretários são convidados pelo próprio diretor, que faz um acordo com a diocese ou com a congregação, como é o meu caso, eu sou missionária da Consolata, e estou a serviço das Pontifícias Obras Missionárias.

Qual é o carisma da POM?

Pe. Jaime: O carisma é a missão ad gentes, além fronteiras, é a cooperação missionária. Ela se insere dentro do âmbito da cooperação missionária, isto é, ajudar as igrejas locais, as dioceses a assumirem responsabilidade com a missão universal da igreja, como um todo. E aqui nós estamos nesse encontro que é o primeiro congresso justamente conversando com os seminaristas sobre esse tema. Como é que o presbítero tem que colocar a missão no coração, porque que é importante? Pois a missão é uma só, é a missão de Deus, junto a qual nós somos convidados a cooperar, aí vem a cooperação missionária.

Como surgiram as Pontifícias Obras Missionárias?

Pe. Jaime: A primeira é a Obra da Propagação da Fé, foi fundada em 1822 por Paulina Jaricot. Era um movimento de grupos de animação e cooperação para ajudar nas missões na China, no Japão, na África. Depois nasceu a obra da Santa Infância Missionária, que depois se chamou Pontifícia Obra da Infância e Adolescência Missionária. O bispo que fundou foi dom Carlos Forbin Janson, de Lyon, na França em 1843. Depois em 1889, Joana Pigar e a mãe dela, Estefânia, fundaram a obra de São Pedro Apóstolo. Se a infância e adolescência missionária era pra trabalhar essa consciência missionária em crianças e adolescentes, a obra de São Pedro Apóstolo era pra apoiar a formação dos padres nas igrejas novas, recém-formadas, dioceses, naqueles chamados territórios de missão. Essas três obras só foram tornadas pontifícias por Pio XI em 1922. Então 100 anos depois da criação da primeira elas se tornaram obras do papa, isto é, de toda a Igreja porque são obras do papa, portanto dos bispos, e por consequência, de toda a igreja. A última é a Pontifícia União Missionária. Essa foi fundada em 1916, então neste ano, no dia 31 de outubro, nós comemoramos os 100 anos da fundação. Ela foi fundada pelo padre Paulo Manna. Ele era padre do PIME (Pontifício Instituto para Missões Estrangeiras). Ele foi missionário na Birmânia, que hoje é Myanmar, na Ásia, foi superior geral do PIME e ele teve a seguinte intuição: a missão na igreja é fraca, as pessoas têm pouco conhecimento do que é, e isso é consequência da fraca, ele chamava da ignorância do clero, que tinha como finalidade formar o povo de Deus na missão. Por isso, ele dizia que precisávamos de uma iniciativa para formar missionariamente o clero. Daí foi Pio XII em 1956 que tornou essa última obra a quarta obra pontifícia. Ela é muito focada na formação. Enquanto as outras três têm a finalidade também arrecadar fundos.

*Padre Jaime Patias é missionário da Consalata, original de Tuparandi, no Rio Grande do Sul, e padre há 23 anos. Trabalhou durante nove anos em Moçambique e 10 anos na Revista Missões, em São Paulo. Há quatro anos trabalha nas Pontifícias Obras Missionárias. Estudou Filosofia na PUC em Curitiba, noviciado na Colômbia e Teologia na Inglaterra. Depois foi em missão para Moçambique.

Juliana Mastelini
PASCOM Arquidiocesana

Fotos Tiago Queiroz
PASCOM Arquidiocesana

PASCOM Arquidiocesana
Pastoral da Comunicação da Arquidiocese de Londrina

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